SIGNIFICADO
O termo “phylakterion” significa, em grego antigo, “posto de observação militar”, algo que denominaríamos, para uma referência mais presente, de “guarita”. É também o nome dado a uma tira de couro na qual estão inscritas orações, e que os judeus mais ortodoxos costumam enrolar nos braços e pernas como parte de seu ritual matutino. Ambas as referências, embora pareçam bem distintas, marcam, na verdade, um mesmo objetivo ou intencionalidade: prover uma espécie de proteção.
PLATÃO
O termo, com o primeiro significado, é utilizado por Platão para caracterizar o “lugar” ao qual deverão ser designados os “guardiões” de sua cidade ideal. Na “República”, obra mais famosa do filósofo grego, os personagens dialogam sobre a estrutura daquela que seria, mediante a reflexão filosófica, a melhor de todas as cidades, ou seja, a cidade que realizaria plenamente a justiça, e que, por isso, seria o único ambiente no qual os cidadãos, individualmente, desfrutariam de todas as condições necessárias para realizarem, eles mesmos, a justiça em suas almas. Com esse objetivo, Platão insiste que as crianças deverão ser educadas desde muito cedo em atividades que sejam o mais conformes à virtude, para que se tornem cidadãos bons e honestos, consigo mesmo e com as demais pessoas. Para isso, portanto, é preciso que apenas os indivíduos mais habilitados e que tenham provado ao longo do tempo seu inestimável valor à cidade sejam os responsáveis por ministrar a educação a elas. Tais indivíduos Platão chama de “guardiões”, e seu posto, por assim dizer, isto é, seu “phylakterion”, deve ser erigido na música.
CULTURA
Para Platão, “música” significa sobretudo “cultura”, abrangendo tanto o conteúdo – aquilo que é considerado cultura – quanto a forma – a maneira como se apresenta à coletividade da cidade um determinado conteúdo rotulado como “cultural”. O “guardião”, dessa forma, deverá ser o “músico e harmonista mais consumado”, capaz de imprimir na alma das crianças a ordenação e a beleza que caracterizam sua arte. Nesse sentido, o filósofo nos indica que o responsável pela educação das crianças, que é por conseguinte o responsável pela boa ordem da cidade, não pode ser, ele mesmo, alguém desprovido de cultura, pois “a harmonia musical é também a harmonia da alma” e não pode haver, segundo nosso amigo ateniense, separação entre a beleza das palavras e a beleza do caráter: um bom discurso só pode ser gerado por uma boa alma.
SOFISTAS
Contudo, Platão está longe de ser um pensador ingênuo, e ele, mais do que qualquer outro, soube como a “arte de iludir através das palavras”, denominada “retórica”, quando habilmente utilizada, pode fazer com que um “bom” discurso esconda uma alma “ruim”. De fato, foi a presença massiva dos chamados “sofistas” – professores de retórica que vendiam a habilidade de vencer debates, quaisquer fossem as teses em contenda – na Atenas da Antiguidade, o que primeiro indicou a Platão o poder dos discursos meramente persuasivos. A lição veio da forma mais brutal, quando dois sofistas de segunda geração (ou seja, alunos dos grandes sofistas, a quem Platão ainda dispensava algum respeito), Ânito e Meleto, acusaram Sócrates de praticar a impiedade e corromper a juventude com valores distintos daqueles que à época eram considerados os mais apropriados para a educação. Sócrates, quase uma figura mítica na história da filosofia, mestre de Platão e matriz mais importante do pensamento antigo, não foi hábil o suficiente para se defender na assembléia, e foi condenado à morte por ingestão de cicuta, quando já contava mais de setenta anos.
DISPUTA
O que fica evidente, quando olhamos a história da filosofia nesse prisma, é que havia uma forte concorrência entre os filósofos, que eram os educadores que pretendiam alcançar e transmitir uma verdade, e os sofistas, que eram os educadores que se pretendiam detentores de um conhecimento capaz de garantir a vitória em qualquer debate, e que estavam dispostos a transmiti-lo mediante pagamento. No âmbito da cidade, isso se reflete na relação entre “ética” e “política”. Para os filósofos não há nenhum índice de verdade possível quando ambas não formam uma unidade, ou seja, só é possível ser um verdadeiro político quando a ética concorre como valor fundamental. Para os sofistas, a verdade é, ela mesma, a vitória política, e para alcançá-la não é preciso que a ética seja um valor fundamental, ou melhor, a ética passa a ser definida como a postura que visa tão somente o sucesso político. No que tange à educação, para os filósofos não é possível que um indivíduo mal educado seja um professor, pois ele não realizou em si mesmo o saber que deve instilar, ao passo que, para os sofistas, o saber é utilitário, ou seja, ele deve estar a serviço dos objetivos daquele que o detém, e não se destina a instruir ou esclarecer quais sejam os melhores objetivos.
HOJE
Como bem lembrou o professor Danilo Marcondes, “a consideração da história da filosofia não nos revela o progresso de um saber, nem a expansão de um conhecimento. Não é linear, nem cumulativa, mas antes, os problemas são recorrentes, incessantemente retomados. Assim, não são as respostas dos filósofos, mas antes suas perguntas, que nos motivam e é através dessas perguntas que encontramos o seu ensinamento, desde que possamos retomá-las e reformulá-las como nossas” (In: Filosofia, caminhos para seu ensino, 2008, p.60). Diante disso, não me pergunto, mas pergunto ao leitor: a relação entre ética e política ainda é atual? Há ainda sofistas atuantes nos assuntos da cidade? Existem – e se existem, quem seriam – guardiões da cultura? Ou nosso sistema de ensino está entregue a gente pouco competente? Enfim, nossa sociedade é capaz, ou provê as condições, para a realização da justiça?
Publicado na edição nº 825 do Jornal O Ouvidor, em 25/06/2011