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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Botânica Citadina

O CASO DO IPÊ
Um grande amigo, de fato uma das pessoas que acredito merecedora do maior respeito, chamou-me a atenção para uma frase publicada nesta coluna na edição de 5 de novembro, há 15 dias. O texto fazia uma referência implícita à retirada de um Ipê-rosa pela Prefeitura, no Centro de Igaratá, dizendo o seguinte: “a permissividade com que é vista a extinção de um Ipê-rosa para dar lugar a mais um automóvel na calçada do comércio é assombrosa”. Ele me alertou que essa sentença deixaria espaço para que as pessoas interpretassem como tendo sido os comerciantes aqueles que solicitaram o corte da árvore, o que não é verdadeiro. 
A observação do meu amigo procede, tem fundamento, e é bom deixar claro que não pretendi insinuar nenhuma acusação a quem quer que fosse, senão aos oficialmente responsáveis pelo mau causado à cidade. Bem sei o quanto a sombra daquela árvore, plantada por José Bueno Pedroso (Zé Grande), cidadão igarataense de importância histórica, era apreciada por seres humanos e passarinhos. 

RESPONSABILIDADE
Não sou do tipo que acha que para tudo há, ou deve haver, um culpado. Não gosto do conceito de culpa, porque para que haja culpa, culpa verdadeira, é preciso que o indivíduo tenha consciência de seu erro e reflita sobre seu ato em um sentimento de repulsa, repulsa por si mesmo, e, honestamente, acho que a maior parte das pessoas é simplesmente incapaz de tal coisa... pois não refletem, são incapazes de um juízo crítico acerca de si mesmas! 
Ao invés de culpa, prefiro o conceito de responsabilidade, porque ele não depende apenas do indivíduo, mas, antes, é decorrente da relação que se estabelece entre os indivíduos. Assim, um homem completamente sozinho, sem nenhum laço de parentesco, dívida, nada que o prenda a um determinado lugar, é um homem isento de responsabilidades de qualquer ordem. A responsabilidade passa a existir apenas quando um indivíduo se relaciona com outro e ambos assumem papéis que, por conseguinte, são definidores da própria relação. Um homem solteiro não tem responsabilidades conjugais, bem como a mulher na mesma situação. No entanto, quando se tornam marido e esposa, ambos contraem uma responsabilidade matrimonial, de um em relação ao outro. 

O PODER PÚBLICO
Com o poder público a coisa ocorre de modo semelhante. Um cidadão comum, trabalhador, cumpridor de seus compromissos cívicos, não pode ser responsabilizado pelos atos dos governos, sejam eles bons ou ruins. A responsabilidade sobre os atos dos governos é tão somente daqueles que ocupam cargos públicos, ou seja, dos próprios governantes. E é essencial destacar que essa responsabilidade não é imputada a nenhum membro da administração. Muito pelo contrário, todos escolheram livremente assumir tais responsabilidades no momento em que se dispuseram a concorrer em uma eleição, ou quando decidiram aceitar a indicação a um cargo, ou quando resolveram prestar um concurso público. Nossos governantes, portanto, escolheram assumir responsabilidades, e em nenhum momento lhes é permitido esquivar-se de seus atos, pois não foram coagidos a ocupar a função que ocupam: eles foram voluntários! E tendo escolhido a vida pública, escolheram assumir uma responsabilidade que vai muito além daquela que tem em relação a seus cônjuges, pois trata-se de um compromisso com o bem estar coletivo, com o proporcionar a melhoria nas condições de vida da população como um todo! 

Me pergunto, então, em que a retirada do Ipê-rosa irá melhorar a vida na cidade? Em que o massacre das árvores que compunham há décadas a única alameda de Igaratá, na rua do cemitério, melhorou a vida na cidade? O que uma nova e talvez desproporcional sede da prefeitura trará de benefícios para o município? Especialmente para um município com baixa arrecadação e no qual não existe coleta seletiva de lixo (nem mesmo lixeiras padronizadas!), no qual não há calçadas regulares que permitam o trânsito seguro de pedestres, no qual o calçamento das ruas não recebe manutenção adequada... tão carente de tudo aquilo que é tão pouco, mas que representa tanto na vida coletiva! 

Tabebuia
É o gênero a que pertence o Ipê-rosa, espécie nativa da América do Sul, abundante na Mata Atlântica brasileira. Por seu porte, resistência da madeira, características radiculares e regime de florescência, é recomendada para arborização urbana. (Ver: Lorenzi, H. “Árvores brasileiras: manual de identificação e cultivo de plantas arbóreas do Brasil”, vol. 1).

Publicado no jornal O Ouvidor de 19/11/2011, edição nº 846

sábado, 5 de novembro de 2011

A cidade que comemos

CIDADES GRANDES
Independentemente do tamanho da cidade em que se vive, existem vantagens e desvantagens. Em uma cidade considerada de grande porte, em geral experimenta-se uma sensação de isolamento, de pouco contato com as pessoas, justamente por haver pessoas demais. É comum restringir-se aos grupos sociais em que já se está inserido, havendo, paradoxalmente, pouca abertura para expandir os círculos de convívio. É claro que a verdade destas afirmações depende muito da personalidade das pessoas que vivem em grandes cidades, mas sem dúvida o padrão de comportamento dos habitantes de uma metrópole tende a ser muito mais individualista, valorizando um modo de ser social que poucas vezes revela de fato o caráter das pessoas. Enfim, as pessoas tendem a ser mais “fechadas”, e quem já viveu em uma grande cidade certamente reconhece essa descrição, cuja finalidade é apontar um dentre tantos aspectos negativos desse tipo de ambiente.
Por outro lado, a vida na cidade grande tem também muitas vantagens, como o acesso à vida cultural e a mercados de trabalho mais amplos e variados, permitindo que os indivíduos se confrontem com alternativas mais variadas e construam sua identidade a partir de uma gama de possibilidades muito maior. A vida parece, então, um imenso restaurante com um “menu” enormemente variado, mas no qual as pessoas se sentam à mesa sempre sozinhas.

CIDADES PEQUENAS
Já a vida em pequenas cidades não é tão recheada de opções. A oferta de cultura é rarefeita, quando não absolutamente inexistente, e a um cidadão não resta muitas opções de como levar a sua vida, senão inserindo-se no espaço em que a cidade, como um poder coercitivo, lhe atribui à revelia. Nas cidades pequenas o anonimato da metrópole converte-se em publicidade, e o indivíduo pode sentir que ele não é ele mesmo, mas, sim, que é a expectativa social sobre ele. Esse é um dentre tantos aspectos negativos, mas que traz consigo o outro lado da moeda, ou seja, o fato de que nas cidades pequenas nunca se está sozinho, nunca se está anônimo, e as relações humanas tendem – ou ao menos tem a possibilidade de – a ser construídas em um nível de sinceridade mais elevado, pois as pessoas estão mais dispostas a receber o outro, a conhecê-lo e eventualmente agregá-lo. A desconfiança típica que se atribui ao interiorano só é verdadeira na medida em que ele também se dispõe a interagir com quem lhe é estranho. A vida parece, então, um pequeno restaurante com um “menu” incrivelmente limitado, mas no qual as pessoas se sentam à mesa sempre juntas.

O PRATO QUE SE COME
O anonimato ou a publicidade do modo de vida pode ou não incomodar as pessoas, e na medida das limitações individuais, elas são livres para escolher em que registro social levarão suas vidas. Mas há uma afirmação que talvez ninguém conteste: nas cidades miúdas se come melhor do que nas metrópoles de concreto. E isso não se deve apenas ao fato das mesas gregárias e do regime de intimidade que as pequenas cidades oferecem, mas ao próprio ambiente que elas proporcionam. Cidades menores tendem a ser mais arborizadas, a imprimirem na alma de seus habitantes um modo de vida mais pacato, pausado, refletido, contemplativo, em contraste com o frenesi dos grandes centros, da urgência e dificuldade em se locomover, da pouca natureza e do céu emoldurado pelos edifícios. Tudo isso faz com que a comida, que é a própria vida, embora com temperos e variedades mais limitadas, tenha um sabor mais autêntico e duradouro... ou, ao menos, tenha a possibilidade de ser dessa forma.

REFEIÇÃO INDIGESTA
Contudo, nenhuma cidade, seja ela do tamanho que for, está livre do risco de servir refeições indigestas. Pois se o “fast food” que envenena a vida intensa da metrópole não parece apetitoso, não será a pequenez do vilarejo a garantir o frescor do que se leva à boca. Na cidade grande, por exemplo, cada árvore derrubada é uma dentre tantas perdas inestimáveis para a qualidade de vida, mas à qual já se está infelizmente acostumada a população, e a falta de proximidade entre as pessoas dificilmente gera uma comoção que resulte em ação coletiva. Já nas cidades pequenas, a permissividade com que é vista a extinção de um Ipê-rosa para dar lugar a mais um automóvel na calçada do comércio é assombrosa, e faz pensar que o sofrimento do vilarejo advém do sonho de se tornar um restaurante “fast food”, e sua vocação para um restaurante pitoresco e aconchegante não é nem mesmo cogitada pela ignorância de quem autorizou esse crime.

Perdoem-me os leitores se ao final pareço talvez ininteligível, colocando a história de uma árvore no meio da calçada do restaurante para falar da vida nas cidades, mas isso aconteceu, mais uma vez, na cidade onde ainda habito, e não culpo por isso senão as acéfalas autoridades municipais, lamentando, por outro lado, a omissão vergonhosa dos munícipes que presenciaram o fato. Parafraseando o genial Elomar, “cortaram o tronco do Ipê, tribuna de um velho sabiá...”


Publicado no jornal O Ouvidor em 5/11/2011, edição nº 844