UTOPIA
O termo “utopia” freqüentemente é mal compreendido e vitimado por seu uso impreciso. Impreciso em termos – é preciso conceder –, pois tem uma origem conhecida e compreensível. Com efeito, ele é empregado tendo-se em vista um sentido derivado da condenação moral a que foi submetido o discurso marxista, como a “construção de uma sociedade imaginária, ideal, mas impossível de ser realizada”. O uso corrente do termo, é claro, não carrega esse grau de significação, apenas o suficiente para matizá-lo como uma referência a “um devaneio, uma fantasia, algo que, por não ser realizável, não tem importância”. Não raro, ao debater entre amigos que espécie de atitudes poderia trazer nossa própria sociedade a um estado melhor, mais justo, somos interpelados pela exclamação: “Isso que vocês estão falando é uma utopia!”
A ILHA
A avaliação que nos dirige o ouvinte paralelo à conversa não está incorreta: de fato, a ação de imaginar uma sociedade ideal pode ser chamada “utopia”... é, aliás, a forma mais correta de se referir ao assunto. Contudo, a significação (não o significado) dada ao termo é que está, no mínimo, imprecisa. Pois por direito adquirido historicamente, “utopia” não carrega consigo uma intenção negativa, ela não é um adjetivo depreciativo. Bem o contrário, o termo dá título à mais famosa obra de Thomas Morus (1478-1535), “Utopia”. O texto, celebrado como a primeira expressão do ideal de um Estado Republicano baseado na comunidade de bens – portanto compreendida como uma fonte arcaica de inspiração do socialismo marxista –, apresenta-nos um diálogo entre dois personagens no qual a percepção da condição de miséria em que se encontrava a Europa feudal dá ensejo à construção imaginária de uma sociedade insular ideal, onde o Bem Comum e a Justiça são valores absolutamente palpáveis e presentes.
OS LIMITES DA CIDADE
O fato de Morus localizar sua sociedade utópica numa ilha não deve ser tomado apenas como um capricho literário. Longe disso, ele deve ser, para nós, indicador de um elemento de caráter fundamental para o exercício da boa legislação e do bom governo, a saber, a capacidade de limitar geográfica- e demograficamente a sociedade que se está compondo no discurso. Mas a percepção da importância de tal fator não é privilégio nem ineditismo do pensador inglês, mas algo em que muitos antes dele insistiram, e com especial atenção por parte de Platão, o mais importante filósofo grego.
A REPÚBLICA
Platão (428-347 a.C.) é um pensador que não cessa de nos surpreender. Poderíamos supor que depois de 2500 anos de exegese o sentido de sua obra já se tivesse esgotado. Entretanto, ao nos determos em qualquer uma delas, e em particular na “República” – a mais famosa, lida e talvez mal compreendida de suas obras – somos confrontados com uma avaliação tão acurada das mazelas que sufocam o desenvolvimento das sociedades, que se torna impossível resistir à idéia de que a Atenas decadente por ele descrita poderia ser qualquer das cidades nas quais habitamos. Na “República” – que é na verdade o modelo ancestral da “Utopia” de Morus, Platão também encena um diálogo no qual a decadência do presente convida os personagens a plasmar em palavras uma cidade ideal, perfeitamente governada e na qual todos os cidadãos realizem em suas vidas o maior grau de felicidade possível. Munido da lucidez característica dos filósofos, um dos primeiros pontos em que Platão insiste para que esta sociedade utópica seja minimamente verossímil é quanto a seus limites. “Uma cidade deve ser tão grande que todos os cidadãos conheçam pelo nome uns aos outros, e tão pequena que encontre em seus limites tudo aquilo que é necessário para sua manutenção material”, é uma forma simples de resumir sua opinião.
CIDADES DO INTERIOR
Se Platão estiver certo – e creio que em certo sentido está; se Morus não deve ser mal quisto com o adjetivo de “utópico” – e certamente não deve –, nem ele, nem Marx, então nos restará, por hora, a lição de que as cidades pequenas são mais propícias à realização da justiça social do que as grandes, ainda que mais ricas. Lamentemos unicamente o fato de que nossos governantes sejam, no geral, pouco utópicos, e particularmente, muitíssimo mal instruídos.
Publicado na edição 814 do Jornal O Ouvidor, em 16/04/2011, p.4
Publicado na edição 814 do Jornal O Ouvidor, em 16/04/2011, p.4