A nova edição de "Iniciação à Filosofia", da Prof.ª Marilena Chauí, distribuído nacionalmente pela Editora Ática como opção para o Ensino Médio, CÓDIGO DA COLEÇÃO 28898L2928, contém FALHAS GRAVÍSSIMAS!!! Enviei um e.mail semana passada à editora mas até agora não recebi nem um "muito obrigado por nos avisar". Em um primeiro exame superficial anotei mais de 25 páginas com problemas sérios, que vão desde formulações imprecisas até definições erradas e etimologias de deixar o cabelo em pé! Ao contrário do que alguns poderiam esperar, não vou indicar publicamente quais são, não vou corrigir de graça o trabalho mal feito da Editora Ática, nem vou servir de guia para tantos pseudo-professores de filosofia empregados por aí, atravancando o caminho de estudantes tão mais bem formados e preparados - e digo estudantes, pois tenho a convicção de que o verdadeiro professor de filosofia é aquele que reconhece sua condição de "sempre estudante".
Termo do grego antigo que significa "posto de guarda", "sentinela", "observatório militar". Inicialmente o blog tem a finalidade de reunir os artigos publicados na coluna homônima no Jornal O Ouvidor. Eventualmente abrigará outras produções, fiadas sempre na leitura de filósofos antigos e na visão crítica das limitações da política nacional para a educação e a formação do cidadão, convidando o leitor a refletir e reavaliar seu papel na sociedade.
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terça-feira, 31 de maio de 2011
Esmola na Escola
FESTA
As escolas, que por definição são centros de estímulo e formação cultural da sociedade, mantêm firme a programação anual da festa junina, sendo, em alguns casos, o único local em que são realizadas. Em geral, os preparativos para as festas juninas nas escolas envolvem toda a comunidade escolar e os habitantes do município. De fato, é profundamente desejável que a organização e posterior realização de tais comemorações permitam, em todos os seus níveis, o maior grau possível de interação entre a escola e a comunidade, fortalecendo o vínculo entre ambos, democratizando o espaço acadêmico, tornando-o, também, um reduto de convivência construtiva entre os membros da comunidade.
ORGANIZAÇÃO
No organograma para realização das festas juninas cada ator da comunidade escolar desempenha um papel. Diretores, funcionários e professores – na maioria das vezes por iniciativa própria, pois não recebem remuneração adicional para isso – são encarregados de viabilizar a estrutura física, organizar e realizar os componentes do evento, tais como o bingo, as rifas, as barraquinhas de jogos, o funcionamento da cozinha, os caixas e toda parte financeira. Os alunos, por sua vez, frequentemente são encarregados de fazer a arrecadação de prendas e alimentos, além de ajudarem na decoração e protagonizarem as performances artísticas. Em muitos lugares tem sido assim “desde sempre”, e não me parece que tenha sido dirigida alguma espécie de objeção a este modo de proceder.
PEDINTES
O que motiva o conteúdo desta coluna, que até aqui pouco exibiu da usual forma discursiva que busco implementar, é justamente uma vontade de objeção a este sistema estabelecido, ou ao menos o objetivo de convidar a uma reflexão que, em última análise, deverá nos fazer considerar a relação que a sociedade mantém com a escola em sentido amplo. Parto, pois, do fato de que esta semana, mais de uma vez, fui insistentemente visitado por grupos de alunos, todos na casa dos 12, 13 anos de idade, solicitando doação de alimentos para ajudar na realização da festa junina. Digo “solicitar” na tentativa de não fazer demasiado juízo de valor, mas fica transparente na feição e no comportamento de cada um dos alunos, o constrangimento com que vem pedir minha doação, quase como quem pede esmolas no sinal de trânsito. Quando pergunto que tipo de alimentos eles precisam, respondem rapidamente que “qualquer coisa tá bom”, e se lhes digo que não disponho de nada, reforçam a necessidade de coletar os alimentos e repetem que “qualquer coisa serve, leite, milho, bolacha”. Chego a duvidar da licitude dos pedidos, se são mesmo para a festa junina, e invariavelmente me repudio por isso, ou melhor, repudio nossa mentalidade coletiva de achar que todas as pessoas, de uma forma ou de outra, querem obter vantagens à custa de um motivo presumivelmente nobre.
OBJEÇÃO
Minha objeção, ou, antes, meu repúdio em ver jovens estudantes visivelmente constrangidos pedindo alimentos de casa em casa, não deve ser compreendido como uma tentativa de reprimenda à prática. Mesmo correndo o risco de passar por ingênuo, prefiro crer que se trata tão somente de um hábito historicamente estabelecido, visto pelos agentes escolares como um meio adicional de promover a interação entre a escola e a comunidade, ou seja, de transformar os alunos em agentes da unidade social, valendo-se da ocasião de festividades para tanto. Entretanto, preocupa-me a espécie de exemplo depreendido de tal atitude, pois pode levar os estudantes a identificar o “ato de pedir” como algo natural, como parte de um comportamento socialmente aceito, desde que realizado por um bom motivo. A ressonância é perversa, mas não posso evitar a lembrança das pseudo-associações de auxílio a carentes, das Ong’s de fachada, das inúmeras falsas campanhas de ajuda a doentes, e de como elas podem ter seu germe na prática aparentemente inocente de arrecadar doações para a festa junina da escola.
ALTERNATIVAS
Longe de instituir um discurso condenatório, prefiro pensar alternativas que não só viabilizem a realização das tradicionais festas juninas escolares, mas, sobretudo, que o façam de modo a instruir os alunos acerca das práticas mais apropriadas para angariar apoio e envolver a comunidade. Poder-se-ia aproveitar o mote para, por exemplo, esclarecer de que modo as instituições privadas podem se relacionar com a escola pública, enviando cartas a empresários e comerciantes locais, convidando-os a se reunir com uma equipe de organizadores do evento e “negociando” um possível apoio. Poder-se-ia igualmente procurar os órgãos de imprensa no intuito de divulgar o evento, aproveitando para discutir com os alunos o papel da mídia na nossa sociedade. Poder-se-ia também examinar qual o alcance do poder público na promoção de eventos dessa natureza, debatendo em que medida ele é satisfatório ou não, e as razões para cada uma das respostas. Em suma, creio que perpetuar a prática dos “alunos pedintes”, se não é claramente imoral, aparenta o absurdo desperdício de uma valiosa oportunidade para educar apropriadamente, envolvendo os estudantes, de forma ativa e lúdica, em práticas mais condizentes com nossa organização social, e objetivamente mais profícuas no que se refere ao resultado imediato das ações.
Publicado na edição nº821 do Jornal O Ouvidor, em 28/05/2011
Publicado na edição nº821 do Jornal O Ouvidor, em 28/05/2011
sábado, 14 de maio de 2011
Noções de Ética II
OPINIÃO
Talvez não exista coisa mais importante e fundamental para um indivíduo do que sua opinião. Seja ela certa ou errada, esteja ela amparada em um saber específico ou então apenas fruto de impressões e concepções herdadas, a opinião de um sujeito é, para ele, algo sempre relevante e basilar, pois nela está invariavelmente contido um ponto de vista, uma expressão que é, em alguma medida, a expressão de um modo de vida, de uma visão de mundo, de uma leitura da existência, de como as coisas são, ou de como elas deveriam ser.
JUÍZO
Pode-se opinar sempre sobre tudo e sobre todos, sobre cada aspecto de nossas vidas e segundo aquilo que nos parece verdadeiro. Não há interdito acerca de objetos sobre os quais um indivíduo possa ou não se manifestar, e isso é um direito que entendemos como expressão da liberdade. De fato, nem todas as opiniões tem implicações éticas, e quando as tem, então recebem o nome, não de opiniões, simplesmente, mas de juízos morais ou juízos de valor, pois todas as ações e comportamentos humanos são avaliados tendo em vista não uma verdade objetiva que possa ser verificada desde uma perspectiva isenta e desinteressada – a espécie perseguida pelo discurso científico –, mas, antes, é a expressão reveladora daquilo que nós, na qualidade de sujeitos – seja da ação, seja do juízo – compreendemos como sendo a perspectiva mais verdadeira ou adequada.
PERSPECTIVAS
Dito de outro modo, toda vez que alguém afirma “isto é bom”, “ele agiu bem” ou “deveria ser feito assim”, com relação a qualquer opinião ou comportamento, está emitindo um juízo de valor; e este juízo, mais do que uma simples opinião passageira, é revelador do caráter daquele que proferiu a sentença, pois o fez partindo de sua própria perspectiva. Ou seja, toda vez que alguém afirma “isto é bom”, está, na verdade, dizendo: “isto é bom de acordo com meus critérios, de acordo com aquilo que eu julgo ser bom”, e o mesmo se aplica às demais formas de juízo moral. Contudo, nem sempre a perspectiva daquele que avalia uma ação coincide com a perspectiva do agente, isto é, daquele que é sujeito da ação. Quando alguém age de determinada forma está, na realidade, agindo de forma a estabelecer em suas ações aquilo que ele, o agente, acredita ser correto; e, nesse caso, “o que é correto” é “o que é correto a partir da minha perspectiva”.
PARADIGMAS
É bastante óbvio que as percepções do que seja propriamente certo ou errado são tão variadas quanto são múltiplos os sujeitos de ação, e não será incorreto afirmar que cada indivíduo é um universo de valores e concepções único, mesmo quando alguns valores e concepções são partilhados por mais de um indivíduo. Pois aquilo que poderíamos compreender como formando o conjunto de valores e concepções que caracteriza um indivíduo é, afinal, resultado de uma história pessoal exclusiva e que não teve outro sujeito senão este indivíduo que estamos considerando. Em outras palavras, do ponto de vista ético, cada sujeito encarna um paradigma de valores único, e no qual ele encontra respaldo, justificativas para seu modo de agir, ou a partir do qual ele ajuíza o modo de agir de outro indivíduo. E na medida em que cada indivíduo é um universo particular, cada paradigma de valores é também único e particular – mesmo quando há valores coincidentes, insisto –, não havendo um critério objetivo – a não ser aquele imposto pelas leis ou convenções previamente estabelecidas, como no caso da ética profissional – a partir do qual possamos julgar um paradigma em relação ao outro. Os paradigmas de ação e valoração moral são, portanto, incomensuráveis, isto é, não podem ser medidos um relação ao outro, pois cada um é fruto de uma história pessoal que não é nem melhor nem pior do que a história pessoal que resultou em um paradigma distinto, talvez até contraditório.
CONSEQÜÊNCIA
Entretanto, se esta visão é correta, tem-se como conseqüência uma aparente impossibilidade de emitir juízos de valor, pois, se “aquilo que acredito ser correto” é “aquilo que acredito ser correto segundo meu paradigma”, e “meu paradigma é único, resultante de minha história particular, e por isso não pode ser objetivamente comparado ao paradigma do agente sobre o qual recai meu juízo”, então “todo juízo de valor” será “um juízo de valor verdadeiro apenas a partir da minha perspectiva” e, portanto, não aplicável a uma perspectiva diversa, que parte de um paradigma particular e que aufere verdade à ação. Por conseguinte, disso tudo resulta que não haveria uma instância de mediação entre a ação do agente e o juízo de outrem sobre esta ação, isto é, não se poderia interpor a nenhum comportamento uma opinião que não fosse originária do mesmo paradigma que originou a ação.
FALIBILIDADE
A incomensurabilidade entre os paradigmas de ação e ajuizamento moral é uma perspectiva profundamente útil quando visamos preservar o direito dos indivíduos de terem suas próprias opiniões e exercerem sua liberdade de pensamento e expressão, mas, como vimos, pode ter como conseqüência a impossibilidade de legitimar um debate ético. “Cada um age como lhe convém, e cada um pensa disso o que quiser, pois não há critério objetivo que me obrigue a aceitar a opinião de outro com relação às minhas escolhas”, seria a máxima para esse ponto de vista. O debate ético, portanto, só poderia ocorrer na medida em que o agente estivesse disposto a relativizar a verdade de seu próprio paradigma, oferecendo espaço à alteridade, à opinião do outro e ao juízo resultante de um paradigma alheio, isto é, na medida em que não considerasse sua verdade uma “verdade absoluta”, compreendendo e aceitando, assim, sua dose de falibilidade, e reconhecendo que o trânsito com outros indivíduos pode ser, na verdade, a oportunidade para extrair da alteridade elementos para aperfeiçoar a si mesmo.
Publicado em 14/05/2011, na edição nº819 do Jornal O Ouvidor.
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