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sábado, 14 de maio de 2011

Noções de Ética II

OPINIÃO
Talvez não exista coisa mais importante e fundamental para um indivíduo do que sua opinião. Seja ela certa ou errada, esteja ela amparada em um saber específico ou então apenas fruto de impressões e concepções herdadas, a opinião de um sujeito é, para ele, algo sempre relevante e basilar, pois nela está invariavelmente contido um ponto de vista, uma expressão que é, em alguma medida, a expressão de um modo de vida, de uma visão de mundo, de uma leitura da existência, de como as coisas são, ou de como elas deveriam ser.

JUÍZO
Pode-se opinar sempre sobre tudo e sobre todos, sobre cada aspecto de nossas vidas e segundo aquilo que nos parece verdadeiro. Não há interdito acerca de objetos sobre os quais um indivíduo possa ou não se manifestar, e isso é um direito que entendemos como expressão da liberdade. De fato, nem todas as opiniões tem implicações éticas, e quando as tem, então recebem o nome, não de opiniões, simplesmente, mas de juízos morais ou juízos de valor, pois todas as ações e comportamentos humanos são avaliados tendo em vista não uma verdade objetiva que possa ser verificada desde uma perspectiva isenta e desinteressada – a espécie perseguida pelo discurso científico –, mas, antes, é a expressão reveladora daquilo que nós, na qualidade de sujeitos – seja da ação, seja do juízo – compreendemos como sendo a perspectiva mais verdadeira ou adequada.

PERSPECTIVAS
Dito de outro modo, toda vez que alguém afirma “isto é bom”, “ele agiu bem” ou “deveria ser feito assim”, com relação a qualquer opinião ou comportamento, está emitindo um juízo de valor; e este juízo, mais do que uma simples opinião passageira, é revelador do caráter daquele que proferiu a sentença, pois o fez partindo de sua própria perspectiva. Ou seja, toda vez que alguém afirma “isto é bom”, está, na verdade, dizendo: “isto é bom de acordo com meus critérios, de acordo com aquilo que eu julgo ser bom”, e o mesmo se aplica às demais formas de juízo moral. Contudo, nem sempre a perspectiva daquele que avalia uma ação coincide com a perspectiva do agente, isto é, daquele que é sujeito da ação. Quando alguém age de determinada forma está, na realidade, agindo de forma a estabelecer em suas ações aquilo que ele, o agente, acredita ser correto; e, nesse caso, “o que é correto” é “o que é correto a partir da minha perspectiva”.

PARADIGMAS
É bastante óbvio que as percepções do que seja propriamente certo ou errado são tão variadas quanto são múltiplos os sujeitos de ação, e não será incorreto afirmar que cada indivíduo é um universo de valores e concepções único, mesmo quando alguns valores e concepções são partilhados por mais de um indivíduo. Pois aquilo que poderíamos compreender como formando o conjunto de valores e concepções que caracteriza um indivíduo é, afinal, resultado de uma história pessoal exclusiva e que não teve outro sujeito senão este indivíduo que estamos considerando. Em outras palavras, do ponto de vista ético, cada sujeito encarna um paradigma de valores único, e no qual ele encontra respaldo, justificativas para seu modo de agir, ou a partir do qual ele ajuíza o modo de agir de outro indivíduo. E na medida em que cada indivíduo é um universo particular, cada paradigma de valores é também único e particular – mesmo quando há valores coincidentes, insisto –, não havendo um critério objetivo – a não ser aquele imposto pelas leis ou convenções previamente estabelecidas, como no caso da ética profissional – a partir do qual possamos julgar um paradigma em relação ao outro. Os paradigmas de ação e valoração moral são, portanto, incomensuráveis, isto é, não podem ser medidos um relação ao outro, pois cada um é fruto de uma história pessoal que não é nem melhor nem pior do que a história pessoal que resultou em um paradigma distinto, talvez até contraditório.

CONSEQÜÊNCIA
Entretanto, se esta visão é correta, tem-se como conseqüência uma aparente impossibilidade de emitir juízos de valor, pois, se “aquilo que acredito ser correto” é “aquilo que acredito ser correto segundo meu paradigma”, e “meu paradigma é único, resultante de minha história particular, e por isso não pode ser objetivamente comparado ao paradigma do agente sobre o qual recai meu juízo”, então “todo juízo de valor” será “um juízo de valor verdadeiro apenas a partir da minha perspectiva” e, portanto, não aplicável a uma perspectiva diversa, que parte de um paradigma particular e que aufere verdade à ação. Por conseguinte, disso tudo resulta que não haveria uma instância de mediação entre a ação do agente e o juízo de outrem sobre esta ação, isto é, não se poderia interpor a nenhum comportamento uma opinião que não fosse originária do mesmo paradigma que originou a ação.

FALIBILIDADE
A incomensurabilidade entre os paradigmas de ação e ajuizamento moral é uma perspectiva profundamente útil quando visamos preservar o direito dos indivíduos de terem suas próprias opiniões e exercerem sua liberdade de pensamento e expressão, mas, como vimos, pode ter como conseqüência a impossibilidade de legitimar um debate ético. “Cada um age como lhe convém, e cada um pensa disso o que quiser, pois não há critério objetivo que me obrigue a aceitar a opinião de outro com relação às minhas escolhas”, seria a máxima para esse ponto de vista. O debate ético, portanto, só poderia ocorrer na medida em que o agente estivesse disposto a relativizar a verdade de seu próprio paradigma, oferecendo espaço à alteridade, à opinião do outro e ao juízo resultante de um paradigma alheio, isto é, na medida em que não considerasse sua verdade uma “verdade absoluta”, compreendendo e aceitando, assim, sua dose de falibilidade, e reconhecendo que o trânsito com outros indivíduos pode ser, na verdade, a oportunidade para extrair da alteridade elementos para aperfeiçoar a si mesmo.

Publicado em 14/05/2011, na edição nº819 do Jornal O Ouvidor.