OS QUATRO PILARES DA EDUCAÇÃO
No final da década de 1980 e início da década de 1990, discussões no âmbito da UNESCO, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para a educação e a cultura, produziram os chamados quatro pilares para a educação no século XXI, que são: “aprender a conhecer”, “aprender a fazer”, “aprender a conviver” e “aprender a ser”. Os dois primeiros, de modo suficientemente claro, dizem respeito às competências cognitivas e técnicas, e o terceiro, à habilidade social ou interpessoal. O quarto pilar, entretanto, não compreende nem uma competência – um saber que se adquire e nos torna aptos a desempenhar alguma tarefa – nem uma habilidade – uma capacidade que se desenvolve e nos torna aptos a agir de modo excelente em algum contexto ou em relação a alguma demanda; o quarto pilar, na verdade, diz respeito ao desenvolvimento moral dos indivíduos.
EDUCAÇÃO MORAL E CÍVICA
Podemos nos perguntar, e todos os pais cujos filhos estão em idade escolar deveriam, se a instrução moral de seus filhos deve ser deixada a cargo da escola. As noções do que seja propriamente bom ou ruim, certo ou errado, os valores que deverão servir de pauta para o modo de ser de seu filho, são responsabilidade de quem, afinal? Durante muito tempo, na experiência nacional, a escola foi responsabilizada por grande parte dessa educação, e havia mesmo uma disciplina intitulada “Educação Moral e Cívica”, cuja finalidade era a instrução nos bons costumes e nas práticas adequadas à cidadania. Essa disciplina, assim como também OSPB – Organização Social e Política do Brasil – e EPB – Estudos dos Problemas Brasileiros –, deixou de integrar o currículo básico da educação, principalmente por estarem atreladas à ideologia nacionalista em vigor durante o Regime Militar (1964-1984).
EDUCAÇÃO E MORALIDADE
O cidadão incauto, então, possa talvez lamentar que a escola, desde o restabelecimento da ordem democrática, não esteja mais obrigada a fornecer a instrução moral aos seus alunos, não seja mais responsabilizada pela propagação dos bons costumes e práticas cidadãs, pois estes são elementos que, à primeira vista, parecem profundamente desejáveis na formação dos indivíduos. Ele poderia se perguntar, por exemplo, se não seria vantajoso para a sociedade que os alunos fossem educados de modo a admitir valores verdadeiros e agir de acordo com exemplos corretos e edificantes... não seria?
Evidente que sim! Evidente que sim! Contudo... quais são os “valores verdadeiros”? O que significa “praticar a cidadania”? Quais seriam os “exemplos corretos” a serem apresentados como modelos de conduta? Devemos esperar que a escola ensine que o homossexualismo e o adultério são crimes hediondos, contrários à vontade de Deus, tal como acontece no Irã? Ou que a prática sexual envolvendo mais do que duas pessoas pode render alguns anos de prisão, como é na China? Ou quem sabe deveríamos dizer aos alunos que não há nada de extraordinário em fumar maconha, ou ainda, que a eutanásia é uma escolha legítima, tal como é na Holanda?
ALGUMAS DIFICULDADES DA EDUCAÇÃO MORAL
Talvez a maior dificuldade em realizar a educação moral nas escolas públicas esteja na impossibilidade de determinar quais os valores a serem ensinados. Nossa sociedade, pelo menos desde o final do Regime Militar, caminha rumo à compreensão de que os indivíduos são livres para escolher como “deverão ser”. A liberdade de expressão e de pensamento, considerados em si mesmos valores fundamentais para a constituição de um regime democrático, proíbe o Estado de interferir na constituição moral das pessoas, permitindo que elas alimentem idéias e concepções as mais variadas, desde que sua conduta não infrinja nenhuma lei. Quanto à discriminação racial, por exemplo, não é proibido, do ponto de vista jurídico, pensar que um determinado tipo físico indica indivíduos melhores do que outros; proibi-se, outrossim, que tal pensamento seja expresso com o intuito de atingir outra pessoa. Se sou um indivíduo homofóbico, dentro de uma família que alimenta valores homofóbicos, não há interdição quanto a discursos de ofensa aos homossexuais no âmbito da minha casa, mas dirigir minhas idéias homofóbicas com o intuito de atacar moralmente um homossexual, eis um tema dos mais candentes e que está – ou deveria estar – sendo discutindo no Congresso Nacional.
A formação moral, portanto, esbarra na determinação do que seja “o correto”, do que se deve ensinar. A preocupação contida no “aprender a ser”, o quarto pilar da educação segundo a UNESCO, vem adquirindo, por isso, um contorno de valorização do multiculturalismo, da tolerância e do respeito às diferenças, do reconhecimento do outro como detentor do direito absoluto sobre suas idéias e seu modo de vida, visando, com isso, um matiz inclusivo, um discurso que, na medida do possível, não exclua nenhuma concepção como sendo “total- ou absurdamente errada”, mas como uma marca de idiossincrasia cultural que deve ser compreendida a partir de seu contexto particular. Ao leitor incauto, mais uma vez, essa posição talvez pareça profundamente desejável, uma chave para promoção do entendimento mútuo entre os indivíduos, mas... o que fazer com as concepções contrárias, por exemplo, ao regime democrático? Como proceder diante de ideologias excludentes, discursos de intolerância e discriminação? O multiculturalismo tem meios para absorver estes fenômenos como “livre exercício da autodeterminação individual”, ou o respeito às diferenças tem limite, de modo que só se aplica a valores que guardem, eles mesmos, alguma semelhança com a tolerância e o respeito? Enfim, é possível tolerar os intolerantes, já que a tolerância é um valor fundamental do “aprender a ser”? Como a escola deve proceder? Ela deve, de fato, ser responsável pela educação moral?
Publicado no Jornal O Ouvidor, edição nº 829, em 23/07/2011