Jean-Jacque Rousseau (1712-1778) é um dos mais importantes filósofos na história do pensamento, sem falsa retórica. Nascido na Suíça, a influência de suas idéias e o vigor de seu estilo literário ainda ocupam papel de destaque no meio acadêmico, especialmente quando o debate se acerca da teoria política. Conhecido especialmente pela sua obra “O Contrato Social”, no qual argumenta que o homem, considerado em seu estado de natureza (estado primitivo, anterior à constituição da sociedade), é naturalmente bom, Rousseau foi ainda autor de diversos tratados de interesse. No que segue abaixo, selecionei algumas passagens de seu “Emílio, ou Da Educação”, que, nas palavras do próprio Rousseau, são “devaneios de um visionário sobre a educação”. Com efeito, muitas das críticas que o autor dirige à educação não reverberam nas práticas atuais, considerando-se o disto que nos separa de sua realidade, mas acredito que seus princípios conservam ainda o mesmo poder de interpelar nossas consciências, obrigando-nos a refletir sobre nossas próprias idéias, opiniões, palavras e práticas. A relevância do “Emílio”, que assume a forma mais ou menos bem definida de um diálogo entre um preceptor e seu aluno, pode ser medida pela dupla condenação, na França e na Suíça, em 1762, que ordenava “rasgar e queimar todos os exemplares, por tratar-se de obra ímpia, propensa a destruir a religião cristã”. No correr dos séculos, aprendemos que tal condenação deve ser vista como “honra ao mérito”.
Os excertos abaixo foram retirados da edição traduzida por Roberto Leal Ferreira e publicada pela Martins Fontes em 2009 (3ª edição, páginas 69 a 75). O enquadramento temático é de minha autoria.
O ERRO DE SACRIFICAR O PRESENTE EM PRÓL DE UM PRETENSO FUTURO
“Que devemos pensar, então, dessa educação bárbara que sacrifica o presente por um futuro incerto, que prende uma criança a correntes de todo tipo e começa por torná-la miserável, para lhe proporcionar mais tarde não sei que pretensa felicidade de que provavelmente não gozará jamais? (...)Homens, sede humanos, este é vosso primeiro dever; sede humanos para todas as condições, para todas as idades, para tudo que não é alheio ao homem. Para vós, que sabedoria há fora da humanidade? Amai a infância; favorecei suas brincadeiras, seus prazeres, seu amável instinto. Quem de vós não teve alguma vez saudade dessa época em que o riso está sempre nos lábios, e a alma está sempre em paz? (...)Ouço os clamores distantes dessa falsa sabedoria que sem cessar nos tira para fora de nós mesmos, que sempre considera o presente como nada e, perseguindo sem tréguas um futuro que foge à medida que avançamos, de tanto nos levar para onde não estamos, leva-nos para onde não estaremos nunca.”
REFUTAÇÃO DO ARGUMENTO DA CORREÇÃO DO CARÁTER E OS LIMITES DA EDUCAÇÃO INFANTIL
“É tempo, respondeis-me, de corrigir as más inclinações do homem; é na infância, quando as dores são menos sensíveis, que devemos multiplicá-las, para poupá-las na idade da razão. Mas quem vos diz que todo esse arranjo está a vossa disposição, e todas essas belas instruções com que torturais o débil espírito de uma criança não lhe serão um dia mais nocivas do que úteis? ...Por que lhe dais mais males do que sua condição comporta, sem terdes certeza de que esses males presentes diminuirão os futuros? E como me provareis que essas más inclinações de que pretendeis curá-la não provêm de vossos cuidados mal compreendidos, muito mais do que da natureza? Infeliz previdência, que torna um ser atualmente miserável, na esperança em ou mal fundada de torná-lo feliz um dia! (...)A humanidade tem seu lugar na ordem das coisas, e a infância tem o seu na ordem da vida humana: é preciso considerar o homem no homem e a criança na criança. Determinar para cada qual o seu lugar e ali fixá-lo, ordenar as paixões humanas conforme a constituição do homem, é tudo que podemos fazer pelo seu bem-estar. O resto depende de causas alheias que não estão em nosso poder.”
OS LIMITES DA EDUCAÇÃO SÃO OS LIMITES DO NOSSO CONHECIMENTO, E NÃO SE DEVE IMPUTÁ-LOS ÀS CRIANÇAS
“Não sabemos o que é a felicidade ou a infelicidade absolutas. Nesta vida, tudo está misturado. Não experimentamos nenhum sentimento puro, não permanecemos dois momentos na mesma condição. As afecções de nossas almas, assim como o as modificações de nossos corpos, estão num fluxo contínuo. O bem e o mal são-nos comuns a todos, mas em medidas diferentes. O mais feliz é o que sente menos sofrimentos; o mais miserável é o que sente menos prazeres. Sempre mais sofrimentos do que prazeres: eis a diferença comum a todos. A felicidade do homem aqui na terra é apenas, portanto, uma condição negativa; devemos medi-la pelo menor quantidade de males que se sofrem."
Texto publicado no Jornal O Ouvidor em 09/07/2011. Aqui ligeiramente modificado.
“Não sabemos o que é a felicidade ou a infelicidade absolutas. Nesta vida, tudo está misturado. Não experimentamos nenhum sentimento puro, não permanecemos dois momentos na mesma condição. As afecções de nossas almas, assim como o as modificações de nossos corpos, estão num fluxo contínuo. O bem e o mal são-nos comuns a todos, mas em medidas diferentes. O mais feliz é o que sente menos sofrimentos; o mais miserável é o que sente menos prazeres. Sempre mais sofrimentos do que prazeres: eis a diferença comum a todos. A felicidade do homem aqui na terra é apenas, portanto, uma condição negativa; devemos medi-la pelo menor quantidade de males que se sofrem."
Texto publicado no Jornal O Ouvidor em 09/07/2011. Aqui ligeiramente modificado.
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