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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Resposta ao Douglas

Douglas, parabéns pela sua resposta, ela foi muito bem construída e, excetuando-se pequenas falhas de ortografia e sintaxe, seu raciocínio está muito claro.
Vou proceder por partes, cotejando cada um dos núcleos argumentativos que identifiquei, apresentando minhas ponderações sobre o que você disse. Vamos lá!
Em primeiro lugar, você pontua: “Se ficou de acordo que o ESP defende pontos que já estão previsto no LDB fora a "proibição da ideologia de gênero", não vejo razão racional para não proibir a mesma, não por razões pessoais, ideológicas ou de interesse de grupos ou classes, mas sim pela mesma razão dos outros princípios, por que vai contra as vontades do indivíduo.”
Bom, pelo que entendi, você não vê motivo para que não se proíba e ideologia de gênero por que vai contra as vontades do indivíduo, e não por razões pessoais, ideológicas ou de interesse de grupo, estou certo? Note, isso me parece profundamente contraditório, pois, afinal, que indivíduo é esse de que você está falando? Assim como há o indivíduo contrário, há o indivíduo favorável, concorda? E se não cabe ao Estado outorgar qualquer tipo de privilégio, como você afirma mais adiante na sua resposta, qualquer ato de proibição será também um ato de favorecimento, não acha? Proibir a ideologia de gênero (lembrando que se trata de um factóide) por contrariar a vontade de um indivíduo, significa necessariamente contrariar a vontade daquele que não deseja a proibição, compreende? E a questão aqui é mais profunda, não circunscrita ao Escola sem Partido ou à ideologia de gênero, mas sim à possibilidade de um Estado que não contrarie vontades individuais. Pessoalmente, não creio que isto seja possível, nem mesmo desejável, mas esse ponto pretendo desenvolver mais adiante, pois também seu posicionamento quanto a isso ficará mais claro no decorrer da sua resposta.

Você continua sua resposta da seguinte maneira: “Deixe-me tentar ser mais claro. Está evidente que a educação no Brasil é obrigatória (só checar as leis do ECA e ver o que acontece com um pai que não manda seu filho pra escola), e além de obrigatória, os materiais ensinados pela mesma são decididos pelo Governo (MEC,ENEM,etc), o qual possui um PARTIDO. Querendo ou não o sistema de educação obrigatória teve seus alicerces fixados a mais de 500 anos com uma base para doutrinar a população, só checar a história da revolução protestante.”
Douglas, a obrigatoriedade da educação no Brasil não é dada pelo ECA, ela é dada pela Constituição. O Estatuto da Criança e do Adolescente aprofunda os princípios constitucionais e estabelece políticas públicas de proteção e fomento à juventude. Como a educação é um direito constitucional, e é dever do Estado garantir esses direitos, caso uma família não proporcione educação a seus filhos, ela pode perder a guarda deles, sim. E olha só como isso é importante: em 1992, pouco tempo depois do ECA ter sido promulgado, minha mãe fez parte do Conselho Municipal da Assistência Social e, amparados no Estatuto, conseguiram retirar três meninas, menores de idade, que eram prostituídas pela própria mãe! E como o Conselho Municipal descobriu que isso estava acontecendo? Porque elas não estavam indo à escola! Agora, considere comigo, essas meninas estavam sendo respeitadas na sua vontade? Se, como eu, você presume que não, eu te pergunto: não foi a obrigatoriedade da educação, nesse caso, uma forma de garantir os direitos individuais dessas meninas? Bom, fica aí a reflexão...
Depois você diz que os conteúdos e materiais ensinados nas escolas são dados pelo governo e, portanto, eles são oriundos de um partido. Veja, noto aqui uma percepção um tanto distorcida do sistema político brasileiro, pois o Governo não pertence ao partido do presidente! Embora durante a sua vida você só tenha tido a experiência de presidentes do PT, observe que todas as leis, para serem aprovadas, precisam passar pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal, precisam ter o aval de inúmeras comissões e, em alguns casos, precisam ser julgadas pelo STF. Em todos esses fóruns não existe univocidade: inúmeros atores políticos, de diferentes ideologias e partidos, com diferentes representações, analisam, debatem, votam e decidem a instauração ou não de uma lei. Pelo modo como você se expressou, ficou para mim a impressão que, pra você, o Governo pertenceria ao partido do presidente, e esse governaria de forma despótica, e não é assim que as coisas acontecem. O MEC e as Secretarias Estaduais (ENEM não tem nada a ver com isso), que são os responsáveis pelo material didático, são órgãos que pertencem ao Estado, e não a um Governo ou partido; são órgãos ocupados por servidores e profissionais cujo alinhamento ideológico é diverso, e não me parece que o sistema permita decisões unilaterais e totalitárias. Caberia a você, quanto a esse ponto, procurar conhecer melhor o funcionamento do sistema de governo do Brasil.
Por fim, nesse segundo trecho, você conclui dizendo que a obrigatoriedade da educação tem mais de 500 e que, para isso, é só checar a história da revolução protestante. Bom, sinceramente eu não vejo essa conexão imediata entre a obrigatoriedade da educação e a Revolução Protestante, em primeiro lugar porque a obrigatoriedade da educação pode ter sua origem traçada bem anteriormente a isso e, em segundo lugar, porque ainda que na escola a Revolução Protestante seja apresentada como um capítulo único no livro didático, ela é multifacetada e apresentou diferentes características de acordo com a região em que ocorreu, e dependendo das motivações que a puseram em curso. Gostaria muito que você desenvolvesse esse tema para que eu pudesse entender melhor que tipo de relação você vê entre esses fatos, e como isso se relaciona com a obrigatoriedade da educação no Brasil.

Você continua: “Todas os governos que adotaram o sistema de educação obrigatória contavam com ensinamentos partidários e ideológicos, que eram ensinados obrigatoriamente, OU SEJA, possuíam SIM um partido, logo necessariamente, toda escola que é regida pelo Governo possui também um Partido. Agora analise comigo: O indivíduo já paga obrigatoriamente (pra não dizer que é roubado) impostos, mesmo caso discorde, o indivíduo novamente é OBRIGADO a ir e mandar seus filhos para a escola que ELE está pagando, na qual estudará assuntos OBRIGATÓRIOS decididos pelo Governo. Caso o indivíduo ou sua família quiserem se desacoplar do mesmo, são punidos. Caso uma escola privada tente seguir outros métodos de ensino, é punida, mesmo que indiretamente. Beleza, mesmo que o indivíduo ature o ensino obrigatório que vai contra suas visões de mundo por + de DEZ ANOS, e queira fazer um Ensino Superior, o que vem na cara dele? ENEM. O que cai no ENEM? Exatamente, o que o Governo Partidário decide. Não é difícil compreender a ideia de que não é certo permitir que um Governo eduque seus próprios eleitores.”

Quanto a este ponto, aplica-se muito do que eu disse acerca do trecho anterior e de como me parece que você não está percebendo com clareza as diferenças entre governo e partidos políticos. Eu não poderia afirmar que todos os governos que adotaram a obrigatoriedade da educação estruturaram seus currículos em torno de interesses partidários, simplesmente por eu não conhecer a história da educação em todos os países. Contudo, posso citar o exemplo de Portugal, onde o ensino é obrigatório, mas onde vemos um histórico de abertura e vanguardismo teórico-metodológico bastante interessante, o qual tenho a impressão que contradiz sua afirmação. Recomendo uma breve pesquisa sobre a história da “Escola da Ponte”. Quanto à conclusão de que toda escola regida pelo governo tem um partido, eu te pergunto: isso significa que escolas privadas não tem alinhamento político? Só é partido aquilo que pertence ao governo? Indivíduos que não participam do governo não podem integrar partidos políticos e, portanto, agir e ensinar de acordo com suas convicções? Ou seja, a escola partidarizada é, necessariamente, a escola pública? Me parece que não...
Bom, quanto à afirmação acerca dos impostos, não pretendo me ater muito a esse ponto. Concordo que, no Brasil, somos roubados através dos impostos que pagamos, não por serem obrigatórios, mas pela corrupção institucionalizada. Pagamos alíquotas norueguesas para benefícios somalis, mas não penso que o aspecto da obrigatoriedade seja necessariamente o que configura o roubo, afinal de contas, pra bem ou pra mal, é o dinheiro dos impostos que viabiliza os espaços e serviços públicos, inclusive a escola na qual você estuda, e para a qual se candidatou voluntariamente (a não ser que você tenha sido obrigado pela sua família a estudar na ETEC).
Já em relação ao indivíduo e à família que desejam eventualmente se “desacoplar” do Estado em que vivem, bom, na verdade isso é possível sim, mas esse indivíduo ou família deverá arcar com as consequências (mais ou menos na mesma medida da frase que você usou para “solucionar” a situação retratada no vídeo que postei). Por exemplo, você pode, quando fizer 16 anos, pedir para seus pais te emanciparem judicialmente; a partir disso você pode viver em uma casa e deliberadamente não mais ir à escola, nem pagar impostos tais como o IPTU ou IR; haverá consequências para isso, é claro: você não conseguirá expedir passaporte, não conseguirá crédito bancário, pode ter sua casa colocada a leilão em razão da inadimplência, mas você não perderá a sua liberdade e, no Brasil, pelo menos, se você sofrer um acidente e precisar de atendimento médico, mesmo que você não pague impostos, ainda assim será atendido e receberá a atenção que o sistema público de saúde puder lhe oferecer. Há consequências negativas em se desligar da sociedade? Sim. Elas valem a pena em vista das vantagens? Não sei, cabe a cada um decidir e, como você disse, não se deve impedir o indivíduo arcador das consequências, de cometer seus próprios erros. De antemão, já lhe digo que não concordo de imediato com essa frase (quem é o autor dela?), mas vou deixar esta análise para o final.
Fechando este bloco, você diz que não é certo permitir que um Governo eduque seus eleitores. Ora, voltamos à questão das definições de Estado e Governo. A impressão que me dá, é a de que você considera que a educação fornecida pelo governo tem a finalidade de fazer com que as pessoas (os eleitores) desenvolvam um senso de fidelidade e, portanto, passem a endossar e recolocar aquele mesmo governo no poder, como se a educação fosse um meio de perpetuação de um determinado governo. De novo, talvez você tenha essa impressão em razão da sua pouca vivência política, mas, pense comigo: se um governo procura doutrinar os eleitores tendo em vista sua permanência no poder, e o faz massivamente através dos instrumentos fornecidos pelo Estado, então seria de esperar que não houvesse alternância no poder, certo? Contudo, o que é que se observa na história política do Brasil, pelo menos desde a retomada da democracia, em 1985? A julgar pelas legendas e resumos ideológicos dos partidos, houve alternância, ou seja, não houve perpetuação de um único governo ou partido. Pegue o exemplo dos Estados Unidos, onde a educação é também obrigatória desde 1918, e analise a alternância dos partidos no poder. Você ainda diria que o governo usa a educação como ferramenta de perpetuação no poder?
Ah, já ia me esquecendo do que você disse acerca de escolas particulares utilizarem métodos e conteúdos distintos, e do como isso acarretaria punições, ainda que indiretas. Bom, gostaria de compreender que punições indiretas seriam essas, pois na minha experiência ela só viria do fato de os pais não matricularem seus filhos nessas escolas. Há inúmeras escolas no Brasil que não seguem fielmente o programa do governo; há escolas confessionais, por exemplo; há escolas bilíngues; há escolas internacionais; há escolas montessorianas (sabe o que são?); escolas antroposóficas (sabe o que são?); enfim, há muitas e muitas escolas com orientações ideológicas e práticas metodológicas distintas, e não vejo nenhum tipo de punição incidindo sobre elas. Talvez você pudesse exemplificar sua afirmação quanto a isso, para que eu entenda melhor o que você quis dizer aqui...

Você continua: “Observe TODO O ROLO GIGANTESCO no qual o indivíduo NÃO queria participar, mas foi obrigado pela lei. "Ah mas Douglas mas só você e esses direitistas que pensam assim!", e isso por acaso negá-nos algum dos direitos básicos do indivíduo? Pelo que eu saiba ainda é crime forçar indivíduos a fazerem coisas contra a sua vontade. O grande problema da educação não é resolvido pelo Escola Sem Partido e nenhum de seus semelhantes, é sim um projeto muito bem direcionado, só que para um sintoma, e não para o problema real, que é a educação obrigatória. Que nada mais é do que uma forma de INTERVENCIONISMO. Não sei o quanto o Sr está ciente dos malefícios e o quão imoral e improdutivo é o mesmo, mas não cabe a mim explicá-lo.”
Todo esse rolo gigantesco ao qual você se refere, segundo meu ponto de vista, não é assim tão gigantesco, nem tão enrolado. Como disse, se o indivíduo quiser se desligar da sociedade em que vive, ele pode, desde que esteja pronto a arcar com as consequências. No extremo, ao menos no Brasil, esse indivíduo é livre inclusive para procurar uma outra sociedade na qual se sinta mais à vontade. O que não dá, meu caro, é pra querer continuar participando de uma sociedade sem se ater às leis que ela adota; um exemplo, nesse caso, é o jogo de xadrez (ou qualquer outro jogo): não dá pra jogar com alguém que acha que pode mover qualquer peça em qualquer direção, por quantas casas desejar; a regra do jogo vale para ambos os jogadores, ou então não há jogo; entretanto, ninguém é obrigado a jogar, e na sociedade acontece do mesmo jeito: não gosta das regras? Você tem duas opções: ou muda as regras através da ação política legítima (uma democracia permite que isso aconteça), ou não participa do jogo!
Quanto à fala hipotética dos direitistas, bom, acredito que você mesmo já saiba que sua postura, pelo que me parece, não se alinha com nenhuma definição de “direita” que eu conheça. Seu posicionamento está muito mais próximo do “libertarianismo” (que é diferente de Liberalismo) e do “anarquismo”, que propõe o fim do Estado (ao menos o Estado tal como concebido pela filosofia política clássica) como ente regulador, deixando todas as instâncias decisórias a cargo dos indivíduos. Confesso que não conheço profundamente o pensamento anárquico, mas dois livros podem te ajudar com isso, o primeiro do Robert Novick, “Property, Justice and the Minimal State” (eu o li há muitos anos e infelizmente não sei dizer se há tradução para o português), e o outro do Ivan Illich, “Sociedade sem Escolas”, esse sim traduzido para o português.
Em seguida você afirma, no texto, que o Escola sem Partido é bem direcionado, mas só incide sobre o sintoma, não sobre a causa real do problema, que é a educação obrigatória. Bom, eu não entendo a qual sintoma ele se direciona: à doutrinação político-partidária, que já é vedada pela LDB? À interferência nas crenças religiosas pessoais, que já é vedada pela LDB? Ou a ideologia de gênero, que não existe? E, sinceramente, tenho dificuldade de compreender, a partir do que já expus, como a obrigatoriedade da educação possa ser de fato a raiz dos problemas sociais cujos sintomas você diz que o Escola sem Partido visa combater. Você diz que essa obrigatoriedade é uma forma de intervencionismo, e que isso, por si só, é maléfico e imoral. Bom, essa é uma consideração bastante forte, principalmente quando dirigida a alguém que escolheu ser professor por acreditar que a educação seja o único caminho para o desenvolvimento dos indivíduos e o avanço da sociedade. Não me parece, usando suas palavras, que o intervencionismo seja, em si mesmo, maléfico e imoral, primeiro porque nem todo intervencionismo é maléfico: lembre-se do exemplo que dei lá no início, acerca do ECA e das meninas que eram prostituídas pela mãe: será que a intervenção do Estado foi maléfica? Foi imoral? Imagine um mercado financeiro em que não haja nenhum tipo de intervenção estatal e no qual as pessoas sejam escravizadas pelas grandes corporações: você acha que seria imoral e maléfico que o Estado interviesse para garantir a liberdade dos indivíduos que se encontram nessa situação? Imagine que uma criança não vai à escola e, por isso, não aprende nem a ler, nem a escrever. Você diria que a intervenção estatal, nesse caso, não seria no melhor interesse da liberdade daquele indivíduo? Ainda diria que é maléfica e imoral? Se, assim como eu, você respondeu “não” a todas as questões, então fica claro que nem o intervencionismo, em si, não é maléfico nem imoral, mas, antes, depende daquilo que definimos como sendo “bom” e “justo”; e como o “bom” e o “justo” podem variar de indivíduo para indivíduo, ou bem nós estabelecemos regras sociais comuns, a partir das quais, em uma democracia, buscaremos o aperfeiçoamento, ou bem extinguimos o Estado e deixamos os indivíduos se autorregularem a seu bel prazer; o resultado dessa segunda alternativa, contudo, só poderá ser avaliado a partir da pressuposição de uma natureza humana: se concordarmos com Hobbes, por exemplo, voltaremos a um estado no qual a vida do homem é miserável e curta; se concordarmos com Rousseau e, no limite, com Adam Smith (já leu o primeiro pensador liberal da história? Ainda será apresentado em sala de aula, fique tranquilo), acreditaremos que os sentimentos morais são dados naturais na humanidade e, desse modo, sempre teremos em vista o bem próprio e, por extensão, o bem comum. Pessoalmente, não vejo confirmação dessa suposta bondade inata nos registros históricos da humanidade... O que você acha?

Em relação a algumas perguntas que lhe dirigi, você afirma: “Se já vi alguém mudar sua orientação sexual na escola? Não. Mas o que já vi foi professores quase chorarem de emoção ao ensinarem "A Grandiosa Revolução Russa e seus virtuosos líderes" (o que levou diversos alunos à criarem uma visão distorcida do acontecido), já vi também alunos sendo completamente desmoralizados por serem contra o homossexualismo, já vi peças de teatro coordenadas por professores distorcendo completamente fatos de períodos históricos e já vi inclusive professores defendendo ideias no qual apoio, mas nem por isso, tratei-os como mais corretos ou defendi-os.”
Ok, se você também não viu ninguém mudar sua orientação sexual EM RAZÃO do que aprendeu na escola, estamos de acordo que a chamada ideologia de gênero é uma falácia, ou seja, a escola não homossexualiza ninguém, certo? Se for assim, então, de novo, o Escola sem Partido não tem nenhuma utilidade pedagógica. Quanto a professores quase chorarem de emoção ao ensinarem a Revolução Russa, não vejo problema nenhum nisso; aliás, acho louvável quando um professor é capaz de transmitir sua paixão a respeito de algum tema, pois essa paixão é fundamental para instigar a curiosidade e o prazer de estudar, e isso com relação visão distorcida do acontecido... bom, eu não sei o que disse especificamente esse professor a que você se referiu, mas eu presumo que ele não tenha distorcido fatos, afinal de contas, presume-se que ele fez uma faculdade de história e, portanto, conhece ao menos a narrativa estabelecida. Assim, eu te perguntaria: qual a verdadeira história da Revolução Russa? Qual a verdade acerca dos fatos históricos que você afirma terem sido distorcidos? Em quais obras, vivências e experiências você baseia sua avaliação? Qual metodologia de análise histórica te parece a mais acertada: as abordagens diacrônicas, sincrônicas, a perspectiva estruturalista, ou ainda a simples compilação documental (essa última profundamente marcada pelo positivismo científico)?
Quanto aos alunos desmoralizados por serem contra o homossexualismo, você viu professores fazendo isso em sala de aula? A LDB veda esse tipo de atitude, não é? E por que você não fez nada? Não te importa o que acontece com algum colega seu? Não te importa o que acontece em sala de aula? E, se não te importa o que acontece em sala de aula, por que tanta energia dispendida defendendo o Escola sem Partido? Você não nota aí uma certa contradição?
Sabe, Douglas, o problema não é a paixão com que um professor aborda um tema. Eu tive professores declaradamente socialistas, tive professores que defendiam o liberalismo político, tive inclusive professores cuja atitude geral beirava ao niilismo, e nem por isso eu me tornei socialista, liberalista ou niilista. O problema, meu caro, é a preguiça intelectual das pessoas. Estudar exige esforço, aprender (o que não significa apenas acessar e repetir informações) é um trabalho árduo (embora o Liberalismo clássico não entenda que o conceito de trabalho se aplique às atividades intelectuais). Mas as respostas prontas no Google, a facilidade de acessar informações (independentemente de sua veracidade), faz com que muita gente se apresente como detentora de muito conhecimento, quando, na realidade, não faz mais do que repetir, sem procurar outras fontes, sem considerar pontos de vista diversos, sem ser capaz de colocar em questão suas próprias opiniões; porque é isso que a informação permite às pessoas: opiniões. E opinião é muito diferente de conhecimento. O conhecimento, para definir-se como tal, necessariamente precisa nutrir certo distanciamento da “certeza absoluta”, ele precisa ser capaz de se reavaliar, de identificar suas falhas internas e se reformular, tendo em vista a perfectibilidade que lhe é possível. O conhecimento precisa ser capaz duvidar de si, coisa que a opinião amparada em informações dificilmente faz, porque atenta apenas para aquelas informações que a corroboram. A opinião serve muito mais às convicções do que à ciência, e, como dizia o velho Nietzsche, a convicção é arma dos pregadores morais e teólogos, prontos a afirmar que os homens todos padecem de um mal imenso, para o qual é necessária uma cura final (A Gaia Ciência, §326). O problema, portanto, não é a paixão dos professores, mas o desejo de muitos estudantes por uma verdade pronta e que lhes seja útil, isto é, que atenda a suas expectativas. Quando não encontram isso, muitos se vitimizam e se voltam contra o professor: “ele é um doutrinador, ele está tentando ‘fazer a cabeça’ dos alunos, quer intoxica-los!!!” Note que o que está em jogo aqui não é um questão de conhecimento histórico – para ficar no exemplo que você deu – mas uma questão de relação afetiva: quando alguém é confrontado com um conhecimento que contraria sua opinião, esse alguém reage violentamente para calar aquele saber que lhe opõe, não porque tal saber seja falso, mas porque, ainda que verdadeiro, esse saber o ofende em suas convicções. Veja-se, por exemplo, a história de Galileu: a Inquisição não ameaçou queimá-lo por que o heliocentrismo era uma saber falso, mas por que contrariava a fé cristã... Fica aí a reflexão pra você: o quanto do que estás afirmando é conhecimento, e o quanto é apenas a expressão do desejo de estar certo?

Na sequência, você diz: “E esse ponto defendido que as crianças deveriam pertencer ao Estado assim como pertencem à suas famílias é completamente errôneo, do começo ao fim, a tutela é e deve ser sempre dos pais, o quão moral essa tutela virá a ser ou quais as consequências isso virá a trazer é problema dos mesmos indivíduos. O direito do indivíduo à liberdade, à propriedade privada dos meios de produção, ao livre trânsito nacional e internacional, à defesa da sua propriedade e a sua vida e a de fazer suas próprias escolhas são indiscutíveis e necessárias para a preservação da paz e da melhora da qualidade de vida de todos.”
Bom, não sei se isso ficou claro no meu texto inicial, mas não se trata aqui de “defender o ponto” da tutela do Estado sobre as crianças. Esse ponto não precisa ser defendido, sabe por quê? Porque ele é o artigo 227 da Constituição! Você discorda dele? Ótimo! Em um sistema democrático você pode reunir pessoas que pensam como você, dar início a um movimento para alteração da Constituição e, dessa forma, tornar a sociedade um lugar melhor para as pessoas que pensam dessa forma, considerando-se, obviamente, que seja a maioria a compartilhar essa mesma ideia.
Entretanto, na continuação do seu texto noto certa contradição: você diz que, para preservar a paz e a melhoria da qualidade de vida de todos, são fundamentais a garantia do indivíduo à liberdade, à propriedade privada dos meios de produção, ao livre trânsito, à defesa de sua propriedade e a de sua vida, e o direito de fazer suas próprias escolhas. Olha só, se um direito fundamental consiste em fazer suas próprias escolhas, o que acontece quando minhas escolhas interferem nas escolhas de outros indivíduos? Suponha que eu, no exercício da minha liberdade, resolva escutar música em volume bem alto, de modo que durante a madrugada toda, meus vizinhos serão incomodados por ela; suponha agora que um desses vizinhos venha à minha casa e, acreditando exercer sua liberdade, me ameace com uma arma de fogo caso eu não diminua o volume; suponha agora que eu, percebendo uma ameaça a minha vida, resolvo pegar a minha arma de fogo e mata-lo; quem está certo nesse caso? Se considerarmos o que você diz mais adiante acerca das responsabilidades do Estado, o qual não deve, segundo o que você diz, “interferir nas escolhas, decisões ou feitos dos indivíduos”, como a briga dos vizinhos será solucionada? Afinal, tanto eu quanto meu vizinho hipotético acreditamos exercer nosso direito à liberdade e à preservação da vida, e caso haja interferência do Estado, não se trataria aqui de um INTERVENCIONISMO, o que, na sua opinião, é imoral e maléfico? A solução seria, então, deixar que os indivíduos se resolvam por si mesmos? E, deixando que isso aconteça, você realmente acredita que haverá paz e melhoria da qualidade de vida PARA TODOS?

Na porção final do seu texto, você afirma: “E as responsabilidades do Estado, à qual não é algo que somente eu defendo, são óbvias e necessárias: manter as condições necessárias para que o livre-mercado e trânsito ou, basicamente, o capitalismo, aconteçam, não interferir nas escolhas, decisões ou feitos dos indivíduos, não fornecer benefícios especiais À NENHUM grupo ou classe de pessoas e punir aqueles que interferirem nos direitos dos indivíduos. Esses princípios, caro professor, se relacionam ao LIBERALISMO, o qual acredito que o Sr desconheça o real significado, caso queira se esclarecer, recomendo "Liberalismus" ou "Liberalismo" de Ludwig Von Mises, quem sabe essa ideia mal formada de Estado do Bem-Estar se dissolva.”

Um pouco do que está no início dessa sessão, eu cotejei no final da resposta anterior, e por isso vou focar a análise na ideia de que o Estado deve ser instrumento garantidor do capitalismo de livre-mercado. Pois bem, se eu entendi bem o que você quis dizer, o ideal a ser perseguido pelas pessoas deve ser aquele que privilegia a liberdade e o direito dos indivíduos, certo? Daqui a pouco eu vou te perguntar o que significa liberdade, e de que tipo de direito nós estamos tratando aqui, mas, antes disso, eu gostaria muito que você procurasse definir o que é o capitalismo de livre-mercado. De forma bem concisa, e, nesse caso, inevitavelmente lacunar, eu vou tentar uma descrição desse sistema, construindo meus argumentos a partir dela, e nesse ínterim, você mesmo terá a oportunidade de contemplar a vastidão da minha ignorância acerca do real significado de “Liberalismo”. Estarei, é claro, correndo o risco de jogar por terra meu raciocínio, caso minha descrição preliminar não esteja correta, mas isso fazer parte do processo dialógico, e ademais, como dizia mais ou menos o bom Sócrates, ser refutado é melhor do que refutar, pois aquele que reconhece incorrer no erro, aprendendo, tem a chance de se aperfeiçoar (esta ideia aparece em um diálogo de Platão chamado “Górgias”).
O capitalismo é um sistema econômico normalmente definido segundo as feições que adquiriu a partir da Revolução Industrial. Isso não significa que não havia nenhuma forma de “capitalismo” anteriormente a esse período, e por isso é preciso distinguir entre “capitalismo mercantil ou primitivo”, e “capitalismo moderno”. Estamos falando, aqui, do capitalismo moderno, aquele que eclode a partir da Revolução Industrial, e que, pensando em Max Weber (acredito que você saiba quem é, uma vez que você se declara um Liberal, pelo que entendi) caracteriza-se pela percepção do capital como propriedade individual. Ao ler esta frase, você talvez esteja se perguntando, experimentando talvez certo estranhamento: “desde quando o capital não é propriedade individual? Ora, aquilo que é meu, é meu!” Bom, pra entender como a noção de “capital como propriedade individual” é algo importante e definidor do capitalismo moderno, é preciso entender, antes, as condições materiais que alavancaram o processo de industrialização na história. Este é um tema que, pra falar a verdade, vai dar muito trabalho resumir aqui – será um ponto de pesquisa que você terá que aprofundar por si mesmo –, mas vou fazer o máximo pra ser bem didático – lembrando sempre que eu não domino muito esse assunto.
Se partirmos de uma imagem bem simplista e vulgarizada da Europa do séc. XVII, veremos que a propriedade, as terras e aquilo que nelas há, pertence a algumas famílias nobres, que tem direito divino sobre elas, a chamada monarquia absolutista; além dessas famílias reais, há também um punhado de “nobres menores”, os vassalos, que formam uma classe intermediária, subservientes à realeza, que tem controle (não a propriedade) sobre partes daquelas terras; e, por último, temos a plebe, isto é, o povo, que não tem direito à propriedade. E para que serve a propriedade no século XVII europeu? Para produzir alimentos. Quem produz os alimentos que as pessoas consomem no século XVII europeu? A plebe. E por que a plebe, e não os vassalos ou nobres, produz esses alimentos? Porque a plebe não tem propriedade e, portanto, não tem onde produzir alimentos. Com fome, a plebe pede ao nobre para ficar em suas terras, ao que o nobre atende, mas com algumas condições: primeiro, aquilo que for produzido PERTENCE à coroa, e é a coroa que permite que uma fração do produto permaneça com a plebe que o produziu; segundo, a plebe deve pagar tributos à coroa, uma vez que, além de utilizar da terra para produzir, ela também precisa se instalar, viver, morar, construir uma casa talvez, e sobre isso a coroa exige pagamento. Agora, além do alimento, a plebe necessita obter capital, dinheiro, mercadorias com algum valor, e para isso ela utiliza sua força de trabalho (aquela mesma que ela também emprega produzindo alimentos para os nobres), algo que se evidencia pela presença das chamadas corporações de ofícios, que são associações, “guildas”, em geral de artesãos (a maçonaria, por exemplo, nasce basicamente de uma “guilda” de pedreiros), que de algum modo estavam ligados ou mesmo compunham parte do que, na França, chamou-se de “burguesia”. Havia obviamente um quadro bem mais diverso do que aquele que estou apresentando – e algum amigo historiador que porventura leia isso aqui, vai achar que minha Europa do séc. XVII está mais parecida com a Inglaterra do XII, com Robin Hood se esgueirando pelas árvores de Sherwood –, mas há uma mesma lógica legitimadora das monarquias absolutistas do séc. XVII, e que é justamente aquilo que trará sua ruína no século seguinte.
Temos, portanto, que a classe produtora na Europa do séc. XVII é composta essencialmente pela plebe, ou seja, por aqueles que não tem direito à propriedade e que, por isso, pagam impostos e devem sujeição à nobreza, certo? Pois bem, quando a coroa decide fazer uma guerra, quem luta e morre nessa guerra? E quando a propriedade que pertence ao nobre é ameaçada, quem luta para defender o nobre e sua propriedade? E quando há inverno e não há colheita, quem fica sem comida? E quando não há dinheiro para o tributo, quem é castigado, estuprado, mesmo punido com a morte? Acho que nem preciso responder, não é? Assim, dá pra imaginar que a plebe sempre representa uma ameaça à nobreza, e essa ameaça começou a ganhar fundamento justamente no Inglaterra do final do séc. XVII através de um filósofo chamado John Locke. Imagino que você, um Liberal auto declarado, certamente já leu “Dois tratados sobre o governo”, de 1698, mas eu vou citá-lo ainda assim: “Embora a Terra e todas as criaturas inferiores sejam comuns a todos os homens, cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa. (...) O trabalho de seu corpo e a obra de suas mãos, pode-se dizer, são propriamente dele. Qualquer coisa que ele então retire do estado com que a natureza a proveu e deixou, mistura-a ele com seu trabalho e junta-lhe algo que é seu, transformando-a em sua propriedade. Sendo por ele retirada do estado comum em que a natureza a deixou, a ela agregou, com seu trabalho, algo que a exclui do direito comum dos demais homens” (II, §27).
O que Locke fez, entre outras coisas, foi sustentar a ideia que o homem, por ter direito natural a posse de si mesmo, é também possuidor daquilo que resulta como produto de sua atividade. Agora imagine os monarcas absolutistas escutando esse discurso, e percebendo que a cada dia mais e mais gente começa a ver as coisas dessa forma. Você acha que eles acusariam Locke de ser um doutrinador? Talvez alguém intoxicando os jovens a sua volta? Se, assim como eu, você acha que sim, olha só o que ele escreve mais adiante, no §32: “Mas, sendo agora a principal questão da propriedade não os frutos da terra e os animais que destes subsistem, e sim a própria terra, como aquilo que tem em si e carrega consigo todo o resto, creio que está claro que, também neste caso, a propriedade é adquirida como no caso anterior. A extensão de terra que um homem pode arar, plantar, melhorar e cultivar e os produtos dela que é capaz de usar constituem sua propriedade. Mediante o seu trabalho, ele, por assim dizer, delimita para si parte do bem comum.” Douglas, você está conseguindo perceber o impacto que apenas esses trechos que eu selecionei é capaz de causar? Primeiro ele diz que o trabalho é propriedade do indivíduo, depois sustenta que a terra na qual esse indivíduo trabalhar, em razão justamente desse seu trabalho, lhe pertence? Você percebe que essas duas concepções jogam por terra tudo aquilo que mantém uma monarquia clássica? Daí, eu te pergunto novamente, você acha que eles acusariam Locke de ser um doutrinador? Talvez alguém intoxicando os jovens a sua volta? Pois bem, 89 anos após a publicação dessa obra de Locke, estourou a Revolução Francesa, talvez o episódio mais simbólico do pensamento liberal, e o que, entre outras coisas, reivindicavam os revolucionários? O direito à propriedade da terra! Parece razoável, não? Vai de encontro com um dos princípios básicos do liberalismo, não? Agora imagine se Locke fosse seu professor, hoje, e dissesse em sal de aula que “o povo precisa lutar pelo direito a terra”. Como ele seria classificado: militante do MST? Doutrinador esquerdopata? Cabe uma ação pelo Escola sem Partido?
Bom, nesse ponto talvez você esteja objetando que o cenário pós-revolução francesa talvez tenha dado ao povo o direito de propriedade e, portanto, talvez não caiba mais essa forma de discurso. Se for esse o caso, talvez devêssemos olhar um pouco melhor o que aconteceu na França, como um índice do que ocorreu durante o período de criação e consolidação dos Estados Nacionais. A Revolução Francesa começa em 1789 e atinge seu ápice em 1792 com a deposição da Monarquia. A Revolução foi arquitetada basicamente por dois grupos, os girondinos, que representavam a burguesia urbana, e os chamados “sans-culotes”, que eram os camponeses; os girondinos arquitetaram alianças com a “nobreza liberal” e com parte do clero (afinal, ambos os grupos temiam a guilhotina, não?), enquanto os “sans-culotes” formavam a grande massa populacional. Após 1792, e diante da necessidade de estruturar um Estado sem monarcas, houve uma série de assembleias e disputas políticas internas entre os girondinos e os jacobinos (que incluíam os sans-culotes), que divergiam quanto à abrangência da Revolução: os girondinos pretendiam refrear o ímpeto revolucionário radical dos jacobinos, que propunham, por exemplo, a distribuição igualitária de toda a propriedade e a igualdade irrestrita de todos os cidadãos perante o Estado. Os girondinos, por sua parte, procuravam delimitar as consequências da queda da nobreza, vinculando o direito político à posse de terras, isto é, a alta burguesia, aliada a uma parcela liberal da nobreza (que não era nada pobre), pretendia aprovar uma constituição nacional que outorgava direitos políticos apenas àqueles que, em certa medida, já desfrutavam desses direitos antes da Revolução. Um dos últimos movimentos de tendência jacobina, pelo que me lembro, foi a Conspiração dos Iguais, abafada antes mesmo de se concretizar, e que terminou com o morte de Graco Babeuf, um dos mais proeminentes líderes jacobinos (creio que você se interessará pelas suas ideias). Bom, depois disso, acredito que você saiba quem saiu vitorioso desse episódio. E, portanto, cabe perguntar: será que a Revolução Francesa consolidou, de fato, os ideais liberais? Ela incorporou os princípios iluministas que mencionei acima à estrutura do Estado? Os homens, pela propriedade sobre seu trabalho, adquiriram a propriedade sobre a terra? Como o decorrer da história nos mostra, parece que não. E, justamente por isso, cabe então perguntar: por que o girondinos, baluartes do pensamento liberal, não quiseram aprofundar a revolução?
Bom, uma das hipóteses que me parece bastante plausível, está ligada justamente ao desenvolvimento das guildas e à modernização do processo produtivo. A burguesia girondina, ladeada por uma nobreza ainda muito rica, viu na concentração de riqueza e na propriedade sobre os meios produtivos uma maneira de alçar privilégios que, antes, cabiam apenas à coroa. Se os direitos políticos fossem ancorados na propriedade, então aqueles que dispusessem de mais meios para adquiri-las, automaticamente teriam maior poder e, por conseguinte, privilégios. De certo modo, a Revolução Francesa, embora tenha dado ao mundo “o vocabulário e os temas da política liberal e radical-democrática (...), o conceito e o vocabulário do nacionalismo”, para usar as palavras de Eric Hobsbawn, talvez o mais importante historiador do séc. XX (em “A Era das Revoluções” (1977) 2012, pg. 98), não foi bem sucedida em implantar radicalmente todos os princípios que compunham sua base ideológica. Ao invés de ser escravizado pela nobreza, o povo tornou-se refém do poder econômico da burguesia; sem acesso à propriedade da terra, e com o declínio de uma sociedade majoritariamente agrícola, resultado da Revolução Industrial, que nos primeiros anos do século XIX já repercutia na Europa continental, não houve alternativa senão submeter-se às condições de trabalho estabelecidas por aqueles que já detinham os meios de produção: os burgueses. E, diante disso, cabe perguntar: será que a reivindicação pelo direito a terra é, de fato, uma causa infundada? Se, de acordo com os princípios liberais, é o trabalho sobre a terra aquilo que justifica sua posse, como o Estado brasileiro, em sua opinião, deveria tratar as grandes extensões de terra improdutiva no país? E agora, será que uma causa como a do MST, só por eles vestirem a cor vermelha, é assim tão “comunista”?
Bom, pretendo agora ser mais breve do que fui, pois ainda que tenha sido um prazer responder-lhe, sinto que já dediquei muito do meu tempo não remunerado à tarefa de professor. Para tal, agora que já temos um panorama geral, exemplificado pela Revolução Francesa, de parte dos processos históricos que alavancaram a Revolução Industrial, cumpre retomar aquilo colocado de início: a definição de capitalismo de livre-mercado.
De início, ainda que eu acredite que você já saiba disso, é preciso estabelecer o significado do termo “capital”. Capital é tudo aquilo que, dentro de um sistema produtivo, tem valor intrínseco e/ou potencial para gerar valor. Provavelmente meus amigos da Academia vão dizer que eu estou errado, ou estou sendo impreciso, ou que eu deveria citar algum pensador neste ponto do texto, mas vou correr o risco e seguir com minhas próprias palavras. Assim sendo, capital não é sinônimo de dinheiro, ainda que dinheiro seja também capital; se eu tenho um violão, por exemplo, e sei tocá-lo, ele representa para mim um capital: eu posso vendê-lo (o jargão bancário chamaria isso de “liquidá-lo” ou “capitalizá-lo”), ou posso me apresentar publicamente e, com isso, ganhar dinheiro; nesse caso, além do capital que ele representa, eu agrego a ele o valor do meu trabalho: o conhecimento que me permite executar as músicas e o tempo que eu passo me apresentando. Aqui podemos entender aquela frase do Max Weber que eu coloquei no início: se o trabalho é propriedade do indivíduo (Locke), o valor que o trabalho agrega – e que portanto assume a forma de capital (aquilo que recebo pelo meu trabalho) – também é propriedade dele.  Dizer, portanto, que o capitalismo moderno se caracteriza, entre outras coisas, pela noção do capital como propriedade individual, significa dizer que o capitalismo moderno se funda também na ideia de que é possível quantificar o valor agregado pela atividade laboral de um indivíduo ao seu produto final, ou seja, na ideia de que é possível medir quanto vale o trabalho. A esse valor agregado Karl Marx deu o nome de “mais-valia”, e trata-se de um conceito fundamental pra compreender bem o sistema capitalista.
Continuando com o exemplo do violão, suponha que eu queira comprar um. Vou até a loja, escolho o modelo e o compro por R$1.000,00. O que há nesse valor que eu paguei? A indústria de violões compra a madeira por R$100,00; depois que ela é cortada por um profissional, ela passa a valer R$200,00; depois que ela é transformada em um instrumento, passando pela ação de outro profissional, aquela madeira, que agora é violão, sai da fábrica valendo R$400,00; suponha que o fabricante pague mais R$200,00 em impostos e distribuição; o violão chega à loja custando R$600,00. Vamos analisar aqui onde está o lucro do dono da indústria: no primeiro estágio ele compra a madeira por cem reais, mas ele não vai pagar por isso, então o violão, nesse estágio, “custa” cem reais; no segundo estágio, quando o trabalho (portanto aquilo que é propriedade do indivíduo que o realiza) eleva o valor do violão para duzentos reais (a mais-valia), o dono da fábrica não pode pagar cem reais pelo trabalho que seu funcionário realizou, pois nesse caso ele não irá ganhar nada; então, o que ele faz? Paga a seu funcionário MENOS do que o valor agregado pelo trabalho que ele realizou. Por aquele trabalho o funcionário recebeu, digamos, trinta reais (estou sendo super generoso nessa porcentagem hipotética), e o mesmo acontece com o terceiro estágio: o funcionário agrega duzentos reais com seu trabalho, mas quanto ele irá receber, sessenta? No fim, computando os R$600,00 reais que o revendedor paga, 50% são impostos e matéria-prima, 15% é a remuneração de seus funcionários, e 35% é o que recebe o dono da fábrica. E qual foi o trabalho que o dono da fábrica teve? Se retomarmos o conceito do Locke, de trabalho como transformação do meio natural, qual foi a transformação promovida pelo dono da fábrica? Então o que deu a ele o direito de pagar pela propriedade alheia (o trabalho de seu funcionário), menos do que essa propriedade vale? Você dirá: a propriedade sobre as máquinas que permitem aos funcionários realizar o trabalho. E então caberá a pergunta: mas como o dono da fábrica conseguiu o capital necessário para adquirir as tais máquinas? Uhm, são muitas as possibilidades, uma delas, inclusive, de que ele já pertença a uma daquelas antigas famílias burguesas que constituiu patrimônio às custas dos camponeses e do flerte com a nobreza. Há quem diga que isso é paranoia de esquerdista (kkk), mas talvez haja algum fundamento nessa paranoia diante da recente pesquisa sobre distribuição de renda, realizada pela Oxfam: “Oito pessoas concentram mesma riqueza que a metade mais pobre da população mundial” é o título da matéria: https://g1.globo.com/economia/noticia/oxfam-critica-concentracao-indecente-de-riqueza-no-mundo.ghtml
Eu poderia prosseguir na narrativa e falar do lucro do revendedor, mas acho que o espírito geral do processo produtivo já ficou bem claro. Sendo o objetivo precípuo do capitalismo o acúmulo de capital (propriedade, riqueza, dinheiro, potencial produtivo), pergunto, como um dono de fábrica conseguirá maximizar seu lucro? Com duas medidas simultâneas: diminuindo ao máximo seus custos e aumentando ao máximo seu valor no mercado. E como ele faz isso? Procurando os menores preços de matéria prima, pagando o menor salário a seus funcionários e, se possível, ainda sonegando impostos. O princípio básico, exemplificado ao extremo, é mais ou menos assim: o funcionário da LG que monta 300 TV’s LED UHD 4K 50” por dia, não ganha, no final do mês, o suficiente para comprar sequer uma dessas TV’s que ele montou. Agora, eu nem imagino quantas dessas o presidente da LG poderia comprar todos os dias; e enquanto seus funcionários trabalham, ele se ocupa em fazer o que? Maximizar os lucros da empresa, o que significa que qualquer funcionário pode, “no melhor interesse da empresa” (do lucro do dono), ser demitido – captou o sarcasmo? Ok, eu entendo que o quadro não é tão simples assim, que hoje existem leis que dão alguma segurança ao trabalhador (em algum lugar do mundo isso ainda existe!), e mesmo a instituição de um salário mínimo representa uma vitória na história social do trabalho, contudo, como você bem sabe – tenho certeza – nem sempre foi assim.
Passemos à questão do livre mercado, que é onde o dono da empresa, o capitalista (vamos chamá-lo por seu nome correto), realiza seu lucro. Aqui, mais do que em qualquer parte desse texto, creio que corro o risco de falar besteira, e sugiro que você cheque minuciosamente todas as informações. O caso é que a Revolução Industrial proporcionou uma explosão na capacidade produtiva que, de imediato, causou uma confusão muito grande nas relações comerciais. Enquanto alguns países caracterizavam-se por forte comportamento protecionista, procurando garantir a soberania da produção doméstica sobre as alternativas, às vezes mais baratas, de produtos estrangeiros, tanto nas capitais quanto nas diversas colônias, outros construíram fortunas explorando rotas comerciais e promovendo o comércio internacional. Ao analisar esse novo quadro, Adam Smith, em “Investigação acerca da natureza e das causas da riqueza das nações”, de 1757, descreve as consequências sociais imediatas desse processo de industrialização, propondo, por outro lado, princípios que, se implementados, garantiriam a perpetuação da saúde econômica dos Estados. Para Smith, o Estado não deveria intervir nas práticas comerciais, permitindo que o mercado se autorregulasse, o que aconteceria, segundo afirmava, a partir do predomínio da lógica do livre mercado, isto é, da chamada “lei da oferta e demanda”. Os valores praticados, o montante produzido, o potencial de consumo e a arrecadação decorrente de impostos deveriam ser suficientes, acreditava ele, para pôr em marcha uma relação econômico-social que promoveria um equilíbrio social dinâmico, de modo que os pobres não seriam tão pobres a ponto de não consumirem, e os ricos não seriam tão ricos a ponto de exercer seu poder econômico de modo despótico, isto é, sem tornar os pobres reféns da força financeira.
Em sua obra, Adam Smith postula quais seriam os três princípios básicos da prosperidade econômica de um Estado: 1) só é produtivo o trabalho manual capaz de criar bens materiais que tenham valor objetivo de troca; 2) cientistas, políticos, governantes, professores, músicos, e todos os outros produtores de bens imateriais, “quae tangere non possumus” (é latim!), contribuem só indiretamente para a formação da riqueza nacional; 3) alcança-se o ápice da perfeição quando o Estado, deixando cada indivíduo livre para alcançar o máximo bem-estar pessoal, assegurar automaticamente o máximo bem-estar a todos os indivíduos. Em suma, o Liberalismo de Adam Smith consiste na ideia que o egoísmo de cada um, por obra de harmonia natural e uma tendência universal ao equilíbrio, a qual chama de “mão invisível”, acabe resultando no saldo não intencional de um bem coletivo, ou seja, embora persiga apenas as vantagens pessoais, de forma indireta todos os homens acabam contribuindo para o bem comum.
Note que, na base do pensamento de Smith, há um otimismo imenso em relação à natureza humana, o qual ele expõe em outra obra (não lembro o ano de publicação) intitulada “Teoria dos sentimentos morais”. Para que o livre-mercado pudesse ser bem sucedido, seria necessário que os homens possuíssem um “freio moral” interno que os impedisse de exercer um domínio econômico tirânico sobre os demais, de modo que cada um perseguisse não mais do que aquilo que fosse necessário a sua sobrevivência e prosperidade. Entretanto, o capitalismo de livre-mercado que Smith descreve e que pretende teorizar é muito distinto da forma que esse regime assume a partir da segunda metade do séc. XX, quando o mercado financeiro (e não apenas o mercado baseado em bens de consumo) passa a ser um fator de desequilíbrio nas práticas econômicas; a abertura dos mercados internacionais, o aumento gradual da facilidade de transferência de recursos, o surgimento da figura do investidor capitalista (aquele que não é dono de fábrica, nem empregado, mas que usa o capital para financiar empreendimentos e, posteriormente, auferir lucro sobre aquele capital) e das grandes corporações financeiras, colocou-nos um cenário que os pensadores do séc. XIX e do início do XX não previram, e por isso é importante ter certa cautela ao adotarmos suas teorias econômicas; e por isso, antes de utilizarmos quaisquer desses pensadores como “argumentos de autoridade” para dar solidez a nossos argumentos, é preciso conhecer a fundo o contexto histórico e o panorama intelectual de cada um deles, para compreendermos o alcance e as limitações de suas teorias. Por isso, meu caro Douglas, embora eu agradeça a boa vontade com a qual me indicastes a leitura do Ludwig von Mises, vou enunciar os dois principais motivos pelos quais não vou me lançar a essa tarefa: 1) porque eu estou muito ocupado escrevendo um Tese de Doutorado; e, 2) porque Mises, até onde sei, é uma figura menor e praticamente irrelevante na história do pensamento social e econômico: ele não aparece na bibliografia de nenhuma das grandes obras sobre a história social e econômica do séc. XX, nunca encontrei o nome dele em nenhuma das obras de referência de filosofia social e política, nem escutei seu nome aparecendo nos muitos debates que  tive com amigos meus, muito mais gabaritados do que eu no que concerne à sociologia e economia. E isso não se deve, como você talvez possa estar imaginando, por uma “recusa ao pensamento Liberal”. Não, mesmo! Isso se deve ao fato de que, para compreender o pensamento liberal, é preciso conhecer aqueles pensadores que fundaram e definiram o sentido do liberalismo, ou seja: John Locke, Adam Smith e Max Weber, pra ficar com os clássicos maiores (embora eu já imagine alguns daqueles meus amigos dizendo que são poucos nomes, que precisa colocar J. Stuart Mill, etc, etc). Eu entendo que para você pode ser difícil confrontar-se com a perspectiva de que o autor que você em alguma medida idolatra, não é realmente relevante na história do pensamento, mas, veja, você não precisa abandoná-lo; basta não utiliza-lo como escudo argumentativo, ampliar o seu repertório de leitura, que você terá condições de debater de forma mais aprofundada com aqueles que se dedicam a esse gênero de estudo. Antes de encerrar, vou colocar uma pequena lista (pequena mesmo) das obras que recomendo que você leia, tendo em vista a finalidade mencionada:
Para falarmos sobre o conceito de Liberdade:
Kant, I. “Fundamentação da Metafísica dos Costumes”
Para falarmos de História:
Hobsbawn, E. “A Era das Revoluções”; “A Era do Capital”; “A Era dos Impérios”; “A Era do Extremos” (são 4 livros distintos)
Para falarmos de Liberalismo:
Smith, A. “Investigação acerca da natureza e das causas da riqueza das nações”
Rousseau, J-J. “Discurso sobre a origem e o fundamento da desigualdade entre os homens”
Locke, J. “Dois tratados sobre o governo”
Weber, M. “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”


Bom, Douglas, vou ficando por aqui. Espero que meu texto o inspire a utilizar toda sua disposição e energia para ampliar seus conhecimentos e refinar seus conceitos e raciocínios. Lamento que eu não conheça a obra do Mises para poder compartilhar contigo as “verdades” e “significados reais” que você lá encontrou; lamento que meu conhecimento sobre o Liberalismo seja tão limitado, e que eu não possa oferecer, nesse espaço, muito mais do que fiz. Lembro a você que é prudente conferir todas as informações e conceitos que enunciei, de modo que algum lapso de minha parte possa ser corrigido, se necessário. Fique à vontade para me responder como achar melhor, mas lembre-se que tudo isso aqui foi motivado pela discussão em torno do Escola sem Partido, então seria interessante retomar este ponto. Deixo pra você uma “sugestão” de outro alemão, Friedrich Nietzsche: “Uma vez que se tenha encontrado a si mesmo, é preciso saber, de tempo em tempo, perder-se – e depois reencontrar-se: pressuposto que seja um pensador” (em “Humano, demasiado Humano”, vol. II, §306).