PROTÁGORAS
Protágoras de Abdera (490-420a.C.) foi o mais famoso e bem sucedido sofista da Grécia Antiga. Os sofistas eram conhecidos como professores errantes, homens que percorriam as cidades oferecendo instrução àqueles que pudessem pagar por suas lições. Seu ensino consistia basicamente de antilogia e retórica, respectivamente “a arte do discurso contestatório” e “a arte da eloquência”, ou seja, os sofistas vendiam a habilidade de vencer debates e convencer multidões através dos discursos, capacidade bastante cobiçada pelos homens ricos, habitantes da democracia ateniense.
PLATÃO
Platão (429-347a.C.) foi provavelmente o mais importante e influente filósofo da Antiguidade. Discípulo de Sócrates (470-399a.C.), símbolo perene do pensamento filosófico, Platão nutria grande repúdio pelos sofistas em geral, cujos discípulos de algum modo julgava responsáveis pela morte de seu mestre. Prova disso é o grande número de obras dedicadas a refutar a posição sofística, de acordo com a qual o mais importante para um homem era ser capaz de vencer um debate político, fazendo valer sua posição, qualquer que fosse ela. Para Platão, assim como para Sócrates – podemos presumir – a habilidade de convencer os outros é secundária ante a tarefa de construir opiniões e juízos bem fundamentados e verdadeiros.
O QUE É IMPORTANTE NA EDUCAÇÃO
De todos os sofistas, o único pelo qual Platão demonstrou algum respeito, por assim dizer, foi Protágoras. Dos demais, mesmo os famosos, como Górgias e Eutidemo, não teve piedade e entregou-nos deles um retrato grotesco. A Protágoras, porém, coube intitular uma das obras mais fascinantes da literatura filosófica, no curso da qual os personagens Sócrates e Protágoras acabam trocando de opinião, um convencido pelos argumentos do outro. Deste diálogo, disponível em português pela Editora Universitária da Universidade Federal do Pará, cabe-nos destacar uma breve passagem na qual Protágoras afirma: “Sou de parecer, Sócrates, que, para qualquer pessoa, um dos pontos fundamentais da educação é o conhecimento a fundo da poesia, a saber, a capacidade de discernir nas obras dos poetas o que foi dito com acerto e o que não foi, bem como a de explicá-las e de saber fundamentar, quando interrogado, suas conclusões” (399a).
POESIA
A referência que Protágoras faz à poesia pode parecer estranha ao leitor de hoje, mas adquire total clareza quando compreendemos que por “poesia” o grego antigo significava tudo aquilo que é entendido como tendo valor cultural. Para nós “poesia” significa apenas uma forma de composição literária, mas para Protágoras, Sócrates e Platão, queria dizer “o conjunto dos dados de cultura que caracterizam as práticas, leis e costumes de um povo”, nesse caso o povo ateniense. Dessa forma, a importância da educação está na tarefa de tornar os indivíduos aptos a distinguir aquilo que, na sua cultura, em seus hábitos, em suas leis, enfim, em sua cidade, é dito com acerto ou cometido como erro; e, além disso, de prover também a capacidade para justificar seus juízos, posições e argumentos. A importância da educação, portanto, está na capacitação do indivíduo para tornar-se autônomo, autodeterminado, um “juiz de si mesmo”, como dirá Platão em outra obra.
IMPECILHO
O grande problema para tornar os homens indivíduos desse tipo, afirmava Sócrates, está no fato de que a maioria não reconhece que sustenta juízos, opiniões e atitudes que são, na realidade, falsos, isto é, não foram objeto de reflexão e não podem ser razoavelmente fundamentados. Com efeito, apenas uma parcela muito pequena e rara dos indivíduos está disposta a examinar-se a si mesma, correndo o risco de jogar por terra todas as “certezas” e “verdades” nas quais estava baseada sua vida. Por isso é que lemos Protágoras afirmando, numa frase tipicamente socrática, que “ensinar os ignorantes é facílimo”, pois eles não dispõe de “verdades” prévias e tem a chance de descobrir a verdade sem impedimentos. Como ficará claro ao longo do diálogo, e como parece claro ainda hoje, quando contemplamos os homens “excelentes” que a nossa democracia elegeu, os políticos são os que mais dificilmente estão dispostos a sequer considerar a possibilidade de caminharem no erro, cegos na certeza de que fazem aquilo que é melhor, atolados no auto-engano. Esses, dirá Platão noutro lugar, nem sequer percebem, mas mesmo cercados de ouro, prazeres e poder, vivem a mais miserável de todas as vidas possíveis.
Publicado em 20 de agosto de 2011, no jornal O Ouvidor, edição nº 833