FESTA
As escolas, que por definição são centros de estímulo e formação cultural da sociedade, mantêm firme a programação anual da festa junina, sendo, em alguns casos, o único local em que são realizadas. Em geral, os preparativos para as festas juninas nas escolas envolvem toda a comunidade escolar e os habitantes do município. De fato, é profundamente desejável que a organização e posterior realização de tais comemorações permitam, em todos os seus níveis, o maior grau possível de interação entre a escola e a comunidade, fortalecendo o vínculo entre ambos, democratizando o espaço acadêmico, tornando-o, também, um reduto de convivência construtiva entre os membros da comunidade.
ORGANIZAÇÃO
No organograma para realização das festas juninas cada ator da comunidade escolar desempenha um papel. Diretores, funcionários e professores – na maioria das vezes por iniciativa própria, pois não recebem remuneração adicional para isso – são encarregados de viabilizar a estrutura física, organizar e realizar os componentes do evento, tais como o bingo, as rifas, as barraquinhas de jogos, o funcionamento da cozinha, os caixas e toda parte financeira. Os alunos, por sua vez, frequentemente são encarregados de fazer a arrecadação de prendas e alimentos, além de ajudarem na decoração e protagonizarem as performances artísticas. Em muitos lugares tem sido assim “desde sempre”, e não me parece que tenha sido dirigida alguma espécie de objeção a este modo de proceder.
PEDINTES
O que motiva o conteúdo desta coluna, que até aqui pouco exibiu da usual forma discursiva que busco implementar, é justamente uma vontade de objeção a este sistema estabelecido, ou ao menos o objetivo de convidar a uma reflexão que, em última análise, deverá nos fazer considerar a relação que a sociedade mantém com a escola em sentido amplo. Parto, pois, do fato de que esta semana, mais de uma vez, fui insistentemente visitado por grupos de alunos, todos na casa dos 12, 13 anos de idade, solicitando doação de alimentos para ajudar na realização da festa junina. Digo “solicitar” na tentativa de não fazer demasiado juízo de valor, mas fica transparente na feição e no comportamento de cada um dos alunos, o constrangimento com que vem pedir minha doação, quase como quem pede esmolas no sinal de trânsito. Quando pergunto que tipo de alimentos eles precisam, respondem rapidamente que “qualquer coisa tá bom”, e se lhes digo que não disponho de nada, reforçam a necessidade de coletar os alimentos e repetem que “qualquer coisa serve, leite, milho, bolacha”. Chego a duvidar da licitude dos pedidos, se são mesmo para a festa junina, e invariavelmente me repudio por isso, ou melhor, repudio nossa mentalidade coletiva de achar que todas as pessoas, de uma forma ou de outra, querem obter vantagens à custa de um motivo presumivelmente nobre.
OBJEÇÃO
Minha objeção, ou, antes, meu repúdio em ver jovens estudantes visivelmente constrangidos pedindo alimentos de casa em casa, não deve ser compreendido como uma tentativa de reprimenda à prática. Mesmo correndo o risco de passar por ingênuo, prefiro crer que se trata tão somente de um hábito historicamente estabelecido, visto pelos agentes escolares como um meio adicional de promover a interação entre a escola e a comunidade, ou seja, de transformar os alunos em agentes da unidade social, valendo-se da ocasião de festividades para tanto. Entretanto, preocupa-me a espécie de exemplo depreendido de tal atitude, pois pode levar os estudantes a identificar o “ato de pedir” como algo natural, como parte de um comportamento socialmente aceito, desde que realizado por um bom motivo. A ressonância é perversa, mas não posso evitar a lembrança das pseudo-associações de auxílio a carentes, das Ong’s de fachada, das inúmeras falsas campanhas de ajuda a doentes, e de como elas podem ter seu germe na prática aparentemente inocente de arrecadar doações para a festa junina da escola.
ALTERNATIVAS
Longe de instituir um discurso condenatório, prefiro pensar alternativas que não só viabilizem a realização das tradicionais festas juninas escolares, mas, sobretudo, que o façam de modo a instruir os alunos acerca das práticas mais apropriadas para angariar apoio e envolver a comunidade. Poder-se-ia aproveitar o mote para, por exemplo, esclarecer de que modo as instituições privadas podem se relacionar com a escola pública, enviando cartas a empresários e comerciantes locais, convidando-os a se reunir com uma equipe de organizadores do evento e “negociando” um possível apoio. Poder-se-ia igualmente procurar os órgãos de imprensa no intuito de divulgar o evento, aproveitando para discutir com os alunos o papel da mídia na nossa sociedade. Poder-se-ia também examinar qual o alcance do poder público na promoção de eventos dessa natureza, debatendo em que medida ele é satisfatório ou não, e as razões para cada uma das respostas. Em suma, creio que perpetuar a prática dos “alunos pedintes”, se não é claramente imoral, aparenta o absurdo desperdício de uma valiosa oportunidade para educar apropriadamente, envolvendo os estudantes, de forma ativa e lúdica, em práticas mais condizentes com nossa organização social, e objetivamente mais profícuas no que se refere ao resultado imediato das ações.
Publicado na edição nº821 do Jornal O Ouvidor, em 28/05/2011
Publicado na edição nº821 do Jornal O Ouvidor, em 28/05/2011
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